Categoria: Preconceito

28.03.17

Acessibilidade para o corpo GORDO é urgente!

Ontem vi no meu feed uma matéria (aqui) animadora que contava sobre o primeiro salão “plus size” do mundo, um salão com acessibilidade para o corpo gordo.

O ambiente tem toda a mobília projetada para receber com conforto e segurança os corpos gordos, seu quadro de funcionários é formado por pessoas gordas e que conhecem melhor que ninguém as necessidades e angústias dos clientes.

Em um primeiro momento, eu acredito que muita gente vai julgar esse salão como segregador, que precisamos incluir os gordos em todos os ambientes e não nos isolarmos. Acertei?
Eu preferia mesmo que todos os salões do mundo possuíssem equipamentos capazes de atender com dignidade todos os corpos, mas em um sistema capitalista como o nosso, a realidade é que nunca haverá investimento em itens mais caros para servir melhor uma “minoria”, então precisamos, assim como na moda plus size, contar com iniciativas como essa, que nos abraça completamente e valorizar os empreendedores que pensam na gente na hora de criar seus empreendimentos (ninguém faz sem pensar em lucros, mas que então, nosso dinheiro seja gasto com quem faz o melhor para a gente).

A notícia chata é que um salão, ou qualquer estabelecimento planejado para as nossas medidas, não é a nossa realidade e o que sobra mesmo é a gente se apertar para caber nos lugares e torcer para que o aperto não se torne, também, machucados no nosso corpo.

Percebo ainda, que mesmo nos dias atuais, é muito raro que a gente busque alternativas e quando solicitamos por elas, as pessoas se assustam com a necessidade de espaços maiores para gordos.

Recentemente, eu colei grau, a cerimônia foi em um Teatro antigo e eu sabia que para caber, só no aperto e não achava justo passar aquele momento especial sentada de forma desconfortável, pedi que providenciassem uma cadeira apropriada por telefone e ouvi o moço me explicar que se caso não fosse uma “obesidade exagerada”, eu poderia ir sem preocupação que me caberia, eu podia ter dado uma aula e explicado que não existe uma obesidade exagerada,  mas senti que ele não falou essa merda por mal,  falou por não estar preparado para o questionamento sobre as cadeiras para obesos. Fui super bem tratada na minha “necessidade” na hora do evento e sei que por eu ter pedido, pelo menos 3 pessoas envolvidas no cerimonial descobriram que bundas gordas não precisam se apertar em cadeiras que não as cabem, eu me senti aliviada por ter me sentado com conforto, mas não posso negar que ver a foto e só eu na cadeira diferente me deixou a certeza que o mundo não foi feito para gordos e que vamos ter trabalho para o adaptá-lo aos nossos corpos.

Eu convido vocês gordos como eu, que reclamem mais dos espaços que temos hoje, que deixem claro que aquilo não está atendendo conforme você precisa e não se machuque, emocionalmente e fisicamente, por não caber nos lugares, tenha consciência que é preciso lutarmos para que a sociedade nos caiba e nos inclua, não o oposto.

06.11.16

Show de Preconceitos no Teleton

Ontem a internet ficou um alvoroço após a apresentação do Ballet Plus Size, o motivo da agitação é que o que era para ser muito legal, virou um show de preconceitos no Teleton, o que não faz nenhum sentido, por ser um programa que busca ajuda para inclusão social. Eu tive acesso a pequenos trechos em vídeos pela internet afora e até coloquei um deles no Instagram.

Mas não vi tudo #aindabem,  por isso convidei a Drika Lucena para contar melhor o que aconteceu e ela relata abaixo.

 

“Daí um grupo de gordas lindas é convidado para dançar no Teleton e imagino como tenham ficado felizes em ajudar uma causa tão séria e que de fato muda vidas. Ser uma atração convidada para motivar a doação é uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo uma grande honra.

Pela AACD passam milhares de pessoas de todos os tipos, com muita ou pouca limitação, sem pernas, sem braços, cadeirantes, com paralisia parcial ou total, pessoas de todas as cores e classes sociais.

No palco as gordas lindas e radiantes entram e começa o show do comunicador que resolveu prestar um desserviço aos telespectadores enquanto vomitava preconceito e piadas tão imbecis quanto ele. Será que elas tinham que passar por isso? Há quem defenda e justifique as pérolas do senhor por sua idade ou pela fama de sincero.

As meninas ouviram junto a milhares de telespectadores insinuações de que não arrumam namorado, que a cama não aguenta que comem demais, fez questão de saber o peso de cada uma e ainda disse a uma delas que apesar de negra era bonita.

A filha do dono do baú “arrumou” dizendo que elas eram super bonitas e gostosas, porque elas não eram “aquelas obesas”. Pois é, e ainda teve mais. Uma das moças diz que estavam ali para mostrar que toda mulher deveria se amar independente de como ela fosse. Então ele arremata com um… “ahhh tá, aí fica desse tamanho?”.

Eu só peço a reflexão… Como ficaram as milhares de pessoas gordas que estão com depressão, pânico, que são infelizes e vivem isoladas por isso? O que sentiu a menina que sofre por não conseguir emagrecer e é cobrada o tempo todo dentro e fora de casa? O que passou pela cabeça daqueles que ainda não conseguem ver felicidade em ser como são e que se entopem de remédios para emagrecer e quando não conseguem se odeiam ainda mais por isso? Como mudar mentalidades se um cara endeusado fala tudo isso e muitos riem e concordam com ele? Muito triste que uma cena assim seja tratada como algo normal.

Foi lamentável um convite tão lindo se transformar numa piada onde um lado só acha graça. As meninas estavam lindas e a elas vai todo meu respeito, carinho e admiração. Ao Sr. Abravanel vai o troféu Teletonto pelo festival de abobrinha, pela ignorância e pela falta de respeito. Tá jogando dinheiro, mas ainda não rasga né? Tá gagá, só que não.”

show-de-preconceitos-no-teleton

 

Quando busquei imagem para o post, encontrei essa e fiquei chocada, além de tudo que ele disse ele ainda se sentiu no direito de apertar a bunda da menina. É muito ridículo e sigo lamentando que ninguém tenha o mandado parar.

Nada justifica esse tipo de atitude, mas elas servem para nos mostrar que ainda temo muito que lutar, para que um dia toda e qualquer pessoa seja punida por esbravejar preconceitos.

Vocês assistiram? O que acharam?

 

 

20.10.16

Contrate um Gordo (a)

Estranho esse título, né? Mas vocês irão entender já já o motivo dele.
Na nossa sociedade, as pessoas gordas estão encontrando muita dificuldade em se colocarem no mercado de trabalho, sei que vivemos em meio a uma crise econômica e que não está fácil para ninguém arrumar trabalho, mas para quem é gordo, nunca foi fácil e agora está beirando ao impossível.
Pessoas gordas possuem a mesma capacidade de trabalho de qualquer outra pessoa, mas ainda assim segundo pesquisas 70% dos contratantes não as escolhem como funcionários.

Meninas gordas relatam humilhações passadas em entrevistas de emprego e até mesmo assédio por parte de empregadores, é lamentável, que mesmo com formação e experiência, muitas vezes o gordo perca a vaga devido ao seu corpo.
Transformar essa realidade não é fácil, mas de pouquinho em pouquinho a gente consegue ao menos melhorar.

contrate um gordo

Quero “convidar” a todos vocês que tenham a oportunidade de contratar alguém, que dê preferência aos gordos. Dar preferência não significa escolher qualquer gordo e colocar na vaga apenas por ser gordo, mas significa que, quando esbarrar em um capacitado, não negar a eles essa chance só por ter um corpo maior que o do seu concorrente.
É preciso que a gente se una para tentar fazer algo para mudarmos um pouquinho essa realidade, quem sabe no futuro a gente consiga uma igualdade nessa questão?
Não empregar um gordo é negar a ele o direito de ter sua própria autonomia.

Pensando nessa necessidade, de mostrar que os gordos também são bons de serviço, começarei uma série de posts sobre pessoas gordas atuando em determinadas profissões e saber o que elas têm a nos contar.

Como está a vida profissional de vocês? Vamos papeando e uns motivando os outros.

10.10.16

Daiana Garbin cede espaço para debate sobre Gordofobia!

Logo que a Daiana Garbin saiu da Globo para se dedicar a um projeto pessoal no Youtube, assisti ao seu primeiro vídeo e gostei muito do que ela falava, senti calafrios ao pensar o quanto aquela moça LINDA sofria ao trabalhar como repórter em um dos programas mais gordofóbicos da atualidade. Seu canal EU VEJO é, inclusive, parte do seu tratamento como ela já declarou:
“Não adianta as pessoas elogiarem se a beleza não estiver dentro da gente. Isso é autoestima, ser poderosa, apropriar-se do seu corpo. Acho que estou na metade do caminho, só por estar aqui falando abertamente sobre isso e ter transformado isso em meu projeto de vida” 
Por conhecer bem o mundo dos transtornos alimentares e de imagem, em momento nenhum eu duvidei que a bela, loira e magra Daiana se sentia mesmo uma mulher feia, embora eu mesma nunca tenha sofrido destes transtornos, eu conheço os bastidores e sei que mulheres lindas com transtornos se enxergam de uma forma absurdamente negativa.
Embora eu tenha amado tudo que vi naquele primeiro vídeo, eu me mantive com o pé atrás, temia que ela, por ser linda (dentro dos padrões) e ter um respaldo da Globo, viesse a distorcer a nossa luta contra a Gordofobia, com o velho e conhecido discurso de Saúde, que já conhecemos tão bem, por isso, acabei não indicando o canal dela logo que lançou.

Mas esses dias, tive uma maravilhosa surpresa, quando vi que ela não apenas debateu Gordofobia sem patologizar o corpo gordo, como convidou uma gorda linda para falar sobre o tema, aí garrei amor total no canal dela e acho que TODO MUNDO precisa conhecer.
A Genize Ribeiro (que colabora com o blog), foi a convidada para o bate papo que ficou muito legal, apertem o play para assistir.

É muito maravilhoso quando uma pessoa de destaque decide abordar uma opressão e dá lugar de fala ao oprimido, para mim, fica a certeza que essa pessoa quer mais do que visualizações e fama, ela quer mesmo ajudar a mudar a realidade distorcida da sociedade, dando voz a quem mais entende.

Nós, mulheres gordas, sempre temos muito o que dizer, e serei sempre grata a pessoas que nos cedem espaços e dão destaque a nossa luta.

Desejo de coração que a Daiana Garbin faça as pazes total com seu corpo e que siga ajudando muitas meninas com transtornos a buscarem ajuda e se tratarem também.

Se olhar no espelho, se amar e gostar do seu reflexo é maravilhoso, desejo que todas as mulheres do mundo um dia alcancem esse estágio e possam ser muito mais felizes com a própria imagem.

29.09.16

Eu Sofri: Assédio e Gordofobia

Eu debato gordofobia desde sempre aqui no blog, já passei por várias situações delicadas e foram esses constrangimentos que também me transformaram na mulher que sou hoje. Por ter me empoderado o suficiente nos meus mais de 30 anos de idade é que hoje eu tenho forças para vir aqui contar o que sofri nos últimos dias.
Em Janeiro de 2015 fui para a cidade de São Paulo e achei através do app Hotéis.com o Nomade Art in Hostel e me hospedei lá. Minha estadia por lá (eu estava sozinha) correu tudo bem, tanto que fiz um post (aqui) indicando como opção para quem fosse para São Paulo. Em Julho deste ano quando saiu a data do Pop Plus eu já convoquei uma galera para ir para Sampa comigo e convenci várias pessoas a se hospedarem no mesmo Hostel que eu.

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Chegamos na quinta e fomos bem recebidas por todos, bebemos 2 cervejas (lá possui um bar), na sexta também correu tudo bem, até que no sábado 13/14hs estávamos nos arrumando para o evento e pedimos que ligassem o ar condicionado e ninguém veio ligar (já tinha me hospedado lá antes, sabia que o ar só os staffs ligavam e tudo bem quanto a isso), desci para pedir e soube que a chefia não permitiu… estranhei, mas abrimos a porta do quaro já que não havia nenhum outro tipo de ventilação e acabamos de nos arrumar. No domingo novamente íamos para o evento, só que domingo estava ainda mais quente e éramos em 3 para nos arrumarmos e eu pedi novamente o ar e recebi outra negativa… nisso eu mandei msg no Whats de um dos donos questionando este posicionamento deles, ele me explicou e eu deixei claro que “compramos” a hospedagem com ar, e ainda disse que continuava considerando uma opção de hospedagem para o inverno. Nisso alguém bateu na porta do quarto e como eu estava sozinha pedi que aguardasse eu terminar de me vestir, mas quando abri a porta a pessoa já não estava. No mesmo momento um dos sócios foi “brigar” com as minhas amigas dizendo que havia um papel escrito sobre o horário de uso do ar e blá blá blá, mas de que adianta ter um aviso lá se nos sites de vendas eles não falam sobre isso?

Mais uma vez engolimos tudo e fomos nos maquiar numa área externa com ventilação, saímos para o evento e a noite quando voltamos o Hostel estava sem energia elétrica (choveu bastante no dia) então tentamos dormir com a porta aberta, mas alguém fumava por ali e o cheiro não permitiu que dormíssemos. Quando a energia voltou pensamos oba, teremos o ar e poderemos dormir, certo? Não! O ar não funcionava! Uma das minhas amigas que não consegue ficar em ambientes sem ventilação precisou mudar de quarto para conseguir dormir com uma janela e ar, porém nós não fomos com ela, pois seria uma mudança mais de 1h da manhã.
Na segunda-feira as amigas fizeram check out, e eu permaneci no hostel e me mudei para a suíte que me foi indicada como ideal, neste dia meu Pai foi para lá dormir comigo. Na suíte ligaram o AR enfim, mas pedi que ligasse o frigobar e quando fui beber a água estava quente de tudo. Nesta noite não quisemos o ar para dormir, mas de manhã quando eu arrumava as malas para vir embora meu pai desceu e pediu na recepção que o ligasse e recebeu a resposta que o mesmo só poderia ser ligado a noite… como meu pai não me avisou isso eu segui esperando e arrumando minhas coisas, até que acabei e ninguém ligou o ar… Só soube da negativa quando já tinha descido e deixei mais uma vez para lá.
O atendimento foi ruim demais nessa questão do ar, outras coisas nos incomodaram, mas tudo bem a gente largou tudo para lá e só decidimos nunca mais voltar.

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Mas o pior ainda estava por vir…

Na segunda-feira, dia 26 (6 dias após o check out), um dos sócios veio no meu inbox com reclamações infundadas sobre nossa estadia por lá, eu rebatia as palavras dele, mas parece que ele nem lia e continuava a enviar mensagens repletas de mentiras e absurdos. Em dois momentos a GORDOFOBIA gritou, em um ele diz que não interagimos com ninguém, passávamos o dia no quarto comendo e emporcalhando tudo… Entendeu? Gorda só come! Gorda é porca! Em um outro momento, ele distorce um acontecimento que ocorreu na primeira noite quando a Helena (do blog Garotas Rosa Choque) que é uma gorda 46/48 ao subir na beliche para dormir ouviu d e uma hospede temerosa que estava acomodada na cama de baixo que ela deveria colocar seu colchão no chão e dormisse por lá. Obviamente que ela não ouviu a moça, então eu segurei a cama, Helena subiu e dormiu tranquilamente. No dia seguinte, a outra hóspede ofereceu para trocar de lugar com Helena e assim foi feito sem nenhum comentário a mais sobre o caso, porém, ele me disse que causar medo em alguém não é a proposta do hostel. Mas perae, se alguém nessa história teve medo a culpa é nossa?

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Na galeria abaixo reuni os prints do assédio ocorrido no meu inbox na última segunda, no da Helena na terça (após ela ter postado sobre o assunto em seu facebook aqui) e também algumas respostas do estabelecimento para algumas pessoas que avaliaram o estabelecimento após ocorrido.

 

Como podem ver fomos ameaçadas de uma porrada de coisa, inclusive muitas coisas que não fazem o menor sentido. Para completar eles ainda ameaçaram várias pessoas, apenas por terem dito não concordar com a atitude deles. Estamos tomando as providências legais quanto a isso e torcemos para que mais ninguém seja vítima do estabelecimento como fomos.

Acredito que se tivéssemos falhado realmente, eles teriam a obrigação de nos advertir na mesma hora, não esperar para vir no inbox com essas acusações.

Lamento ter passado por tudo isso, espero que nunca mais alguém precise vivenciar o que vivenciamos. Hoje eu exponho tudo isso com a certeza que dias melhores virão, dias esses sem preconceitos enraizados e assédios.

Para todas que já passaram por algo parecido eu desejo força. E lembrem-se sempre: Juntas somos mais fortes.