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Categoria: Comportamento

08.08.18

PROJETO “QUEM SÃO AS PESSOAS GORDAS?” – Participantes

Como já falamos anteriormente, os participantes do projeto foram os mais diversos possíveis e esse era exatamente o ponto que queríamos tocar. Pessoas gordas não são um grande grupo homogêneo, temos nossas diferenças e nossas individualidades. Deveria ser óbvio, mas pelo que ouvimos todos dias não é e por isso achamos importante ressaltar isso.

E é importante ressaltar que não queremos dizer que existe um tipo de gordo certo ou errado, a intenção desse projeto é só mostrar a diversidade de pessoas gordas que existem no Brasil. E o projeto é apenas uma mínima amostragem disso. E todos merecem respeito!

Abaixo, estão todos os que toparam participar dessa nossa jornada.

 

Ana Carolina Rodrigues Secco Medina

Moradora de Santos/SP, Ana Carolina é engenheira, tem 25 anos e ficou noiva esse ano. Apesar de concordar que a aceitação é uma luta diária, ela se ama e se acha linda e sexy. Tenta conscientizar pessoas ao seu redor sobre a gordofobia

Débora Souza

Um das entrevistadas mais novas, mas também uma das mais participativas quando a questão é militância. Ela tem 18 anos e, durante três anos fez parte de um coletivo de juventude e se alinhou a um partido político de esquerda. Participou das ocupações na cidade de Pelotas/RS. Atualmente, não está mais no partido e no coletivo, mas ainda é ativa de forma autônoma em todas as questões políticas. É também vegetariana há 2 anos.

Driele Andrade

Ela é professora, tem 29 anos e mora no Distrito Federal. Praticou remo por alguns meses, mas devido à indisponibilidade de tempo teve que parar. Ela classifica sua alimentação como instável e diz que sua aceitação com o corpo é relativa. Tem dias que ela se ama muito mas, principalmente por causa da dificuldade de encontrar roupas do seu tamanho no estilo que gosta, ela acaba se sentindo para baixo.

Ernani Branco

Dentre todos os entrevistados, o Ernani foi o único que classificou o seu corpo como seu melhor amigo, após anos tentando construir uma boa relação com ele. Ele é psicólogo, casado e tem 27 anos. Ele tenta se alimentar bem durante a semana, mas não pratica exercícios.

(Fotógrafa: Ires Furtado)

Júlia Conedera

A Júlia é estudante de design de interiores e mora em Pelotas/RS. Ela tem uma alimentação bem balanceada, come bastantes verduras e legumes e pratica diferentes esportes 3 vezes por semana. Ela se disse bastante insegura com seu corpo, mas disse também que está tentando começar a entende-lo.

Karla Muzy

Tradutora de 33 anos, ela acredita que a militância está presente em todos os tipos de ações desde algo mais simples como desconstruir o discurso de um amigo como também reivindicar seus direitos.

Marina Bonadio

Ela tem 18 anos e é muito ativa quando o assunto o assunto é exercícios físicos. Há quase um ano, ela faz treinamento customizado, treinos de força com pesos e rubber e aeróbico com bicicleta, esteira e dança. Ela é de São Bernardo do Campo, em São Paulo e cursa faculdade de Psicologia.

 

Marta Pollyana

Até ter que parar por conta de um tratamento médico, a Marta fazia aulas de zumba 3 vezes por semana e de yoga 2 vezes por semana. Ela tem 37 anos, é casada e é desenhista. Segundo ela, sua relação com o corpo é saudável.

Rafael Kiyan

O Rafael tem 22 anos e está cursando faculdade. Nos últimos 6 meses, tem se exercitado uma vez por semana durante 1 hora, depois de ter ficado 3 anos sem fazer nenhum tipo de exercício físico. Ele tenta conscientizar as pessoas ao seu redor sobre os males da gordofobia.

Raquel Fernandes

Ela é de Santo André/SP, é solteira e tem 35 anos. Ela já chegou a fazer uma cirurgia bariátrica que, segundo ela, não lhe trouxe nada positivo. Por morar sozinha, tem a alimentação mais desregulada.

Renata Guimarães

A Renata tem uma alimentação basicamente natural, e evita glúten, leite e açúcar. Ela pratica pilates 2 vezes por semanas há quase 3 anos e também faz caminhadas. É professora, mestre, casada e tem 34 anos.

Rosane da Silva

Aos 51 anos, a carioca Rosane está aposentada como professora, mas está realizando uma pesquisa de pós-doutorado na temática do corpo gordo e a moda plus size. Segundo ela, essa é sua contribuição para a militância. Ela não bebe refrigerante e evita frituras, mas adora doces.

Tatiane Gimenes

Professora, escritora e blogueira, a Tatiane passou anos tentando esconder o próprio corpo. Hoje em dia, essa situação mudou e ela tem uma relação de puro amor com ele.

Yáskara Kelli

Apesar de achar que sua alimentação não é nada fora do comum, pretende começar a comer de forma mais saudável. Sua relação com seu corpo é conturbada, com muitos altos e baixos. Ela é de Juazeiro do Norte/CE.

 

Por Renata Grota – Voz das Gordas

04.07.18

Projeto “Quem são as pessoas gordas?”

Gordofobia é um conceito que começou a ser discutido há muito pouco tempo, por isso ele ainda causa algumas confusões em quem não o conhece direito (e até em quem o estuda). O fato de essa opressão começar a ter sido discutida na internet aumentou seu alcance, mas também aumentou certos preconceitos em relação a isso. Além das pessoas que duvidam da existência da gordofobia (classificando-a desde pós-modernismo até mimimi), muitas simplesmente fazem piadas com quem luta contra ela.

Um dos conceitos mais errados sobre a gordofobia é aquele em que se fala que todas as pessoas gordas são iguais e, normalmente, isso é colocado de forma pejorativa. Por isso, quis realizar esse projeto, para mostrar o quão falsa é essa afirmação. Assim como qualquer outro grupo, pessoas gordas são diferentes entre si. Elas vêm de diferentes lugares, são de todas as idades, orientações sexuais e classes sociais.

Para realizar esse projeto, entrei em contato com pessoas de dois grupos em que participo – Baleia e Gordofobia Não –  além de anunciar no twitter e no facebook do Voz das Gordas. Quis retratar as peculiaridades de cada uma dessas pessoas. É importante retratar que como os entrevistados vieram desses grupos anti-gordofobia já existe certo perfil entre os entrevistados, mas, na vida real, as diferenças entre as pessoas gordas são ainda mais marcantes.

 

Para mostrar o resultado dessa pesquisa quis focar em pontos nos quais persiste o estereótipo da pessoa gorda: estado civil, exercícios físicos, alimentação, etc. É importante ressaltar que o estereótipo não é algo errado. Não existe o gordo certo e o gordo errado, existem pessoas que tem hábitos e vidas diferentes.

Não existe problema nenhum em ser uma pessoa gorda e estar solteira, o seu status de relacionamento não é da conta de ninguém. Da mesma forma, aqueles que se alimentam bem e fazem exercícios físicos não são melhores ou piores do que os que não fazem. Então, a partir da próxima postagem vamos mostrar, através de fotos e depoimentos, que é impossível nos classificar de uma só forma.

 

02.07.18

Ensaio fotográfico Templo das Gordas

Em um dos muitos grupos que faço parte no Facebook, eu vi nascer uma iniciativa bem legal e mesmo de longe fiquei acompanhando e torcendo para que fosse algo legal. Eu vi uma fotógrafa se disponibilizar para fotografar todas as meninas que quisessem e dali nasceu a idéia do Ensaio Fotográfico Templo das Gordas, após ela se oferecer chegaram mais pessoas dispostas a ajudar nesse dia (maquiadoras e outra fotógrafa e até uma marca para empréstimos de roupas) e com tanta gente se doando o resultado não poderia ser diferente, as fotos saíram e ficou tudo muito MARAVILHOSO.

Pedi as meninas permissão para compartilhar aqui no blog as fotos e um pouquinho da experiência delas, e hoje estou feliz em trazer para o blog tanto amor (inclusive o próprio) e fotos lindas.

O post vai ser grande, mas eu juro que vale a pena ler e sentir um pouquinho do que foi esse dia para elas. <3

 

Cíntia Lira – @ccolira

As palavras-chave são EMPODERAMENTO e AMOR. Devo confessar que eu estava um pouco preocupada de não conseguirmos nos soltar para interagir e posar para as fotos, mas felizmente esse não foi o caso! É inacreditável como tudo contribuiu para que as coisas corressem perfeitamente. Conseguimos roupas emprestadas da Lollaboo, maquiadoras muito boas, duas fotógrafas… O dia estava muito bonito, e as meninas se entrosaram com bastante facilidade. Eu as vi posando com muita espontaneidade, porque estávamos todas visivelmente contentes com o encontro, com as roupas, com a ideia de sermos modelos num ensaio. Isso gerou auto-confiança. Estavam todas gostosas, e sabiam disso. Muitas pessoas ficaram olhando, afinal, um monte de gorda reunida, de barriga de fora, de saia curtinha, é muito para a cabeça de alguns. Mas todas lidamos com isso da melhor forma. Ignoramos os olhares, erguemos a cabeça e continuamos nos divertindo. Eu, particularmente, estava tão envolvida no que estava acontecendo, que simplesmente senti, não tive muito tempo para pensar, e não tirei uma selfie sequer. Me senti poderosa, andando de saia lápis, top e coturno no meio do MASP, algo impensável até pouco tempo atrás… sabendo que contava com a admiração e respeito das mulheres que estavam ali comigo. Mas o que me deixou muito contente mesmo, é que até quem disse que não iria posar, que só compareceria para observar e conhecer as minas do grupo, se sentiu a vontade para posar, e mandou muito bem. Foi lindo ver todas desabrochando, sorrindo, se sentindo confiantes. Eu vi naquele momento que o grupo estava servindo ao propósito, especialmente porque tivemos diversidade de corpos e tons de pele. Foi a experiência mais única da minha vida. Geralmente eu sou ansiosa e até um pouco calculista, para evitar ser constrangida. Nesse dia, não. Minha guarda estava baixa, eu senti tudo. Fiquei elétrica por dias. Depois ainda fomos a um barzinho juntas, o que também foi muito divertido. Então além do dia do ensaio e das fotos em si, que ficaram lindas, nós estreitamos laços, o que pra mim é muito importante. Há um tempo eu venho me sentindo melhor com a minha aparência, mas três fotos em especial me encheram de um sentimento novo. Em uma, eu me senti literalmente uma deusa. Foi a primeira vez que eu me vi em uma foto e pensei “que mulherão!”, e realmente me achei incrível. Noutra, eu senti o meu coração cheio de amor, porque vi como estávamos entregues ao momento. A terceira, que me mostra sorrindo, gerou um misto de insegurança e contentamento, porque há muitos anos eu não me permitia sorrir em público, sempre me policiando e cobrindo o rosto quando não conseguia evitar. Nesse ensaio eu sorri, esqueci de cobrir o rosto, fui fotografada rindo! Depois do estranhamento, eu percebi que não tem nada de errado com o meu sorriso, ao contrário do que me levaram a crer anos atrás. Esse ensaio me fez muitas coisas, e uma dessas coisas foi que agora eu me permito sorrir, e quero estar com pessoas que provoquem meu riso. Esse ensaio foi uma das coisas que me preparou, espiritualmente, para o ataque gordofóbico que sofri no facebook dias depois, pois me deixou consciente e segura de mim mesma.

 

Jaque Jesus – @ja.quino

Quando a Cíntia propôs o ensaio foi um grande presente. Mesmo com a insegurança de nunca ter sido fotografada dessa forma, eu topei na hora! E que bom que topei! Encontrar essas mulheres incríveis e partilhar esse momento de empoderamento com elas, foi uma experiência extraordinária. Vimos de perto uma após a outra perder a vergonha, abrir os sorrisos e fazer vários carões, foi uma descoberta coletiva bem bonita. Após o ensaio, quando vi nas fotos eu pensei “Noooossa, somos mesmo invencíveis. E eu me vi maravilhosa de uma forma como nunca antes”. A sociedade destrói a auto estima da mulher gorda todos os dias, seja nos olhares de reprovação, nos panfletinhos de dietas, nas catracas do ônibus e principalmente nas falsas preocupações com a nossa saúde. Quando nos reunimos em grupo e enaltecemos como somos lindas, poderosas e sexys, parece que as coisas ficam um pouco mais fáceis. Nos tornamos mais fortes para enfrentar o mundo lá fora.

 

Claudia Baht – @claudia_baht

Minha auto-estima está sendo nutrida pela experiência nesse grupo de gordas.
Posar para as fotos foi uma superação que só aconteceu porque o encontro com as mulheres do Templo das Gordas gerou uma vibe tão incrível, que me senti tão poderosa como todas que estavam lá.
Fui ao encontro resoluta que não ia posar para as fotos e que queria mesmo era conhecê-las pessoalmente e acabei tomando uma lição de como olhar para mim e ver a mesma beleza que vi naquelas mulheres maravilhosas e desde então, estou mergulhando no amor e na dor de enxergar o meu corpo e me posicionar.
O contato com o grupo está me proporcionando uma experiência de crescimento sem volta e realmente engrandecedora.
Enfim, agradeço de coração a todas, t-o-d-a-s, TODAS as mulheres do grupo Templo das Gordas por me proporcionarem isso. 🖤

 

Jéssica – @jessica_mantovani751

Esse ensaio de fotos foi umas das melhores experiências que já vivi. Me senti mais mulher mais linda me senti ainda mais segura. Conheci mulheres lindas e cheias de poder. E a partir desse dia me sinto ainda mais linda e poderosa. Por que sei que sou assim e sou linda com esse MEU PADRÃO.

Aline Carolina – @a.caaarol

Que experiência incrível, nunca tinha feito um ensaio mesmo sempre tendo gostado de tirar fotos. Meu maior medo era os olhares das pessoas ao redor, mas estar com outras mulheres que me inspiram me deu muita força e animação na hora de fazer as poses e carão.
Antes mesmo de ver o resultado já me sentia muito mais linda, poderosa e confiante. Aguardei as fotos muito ansiosa, e foi uma surpresa ver que mesmo com toda vergonha as fotos tinham ficado linda.
Depois desse ensaio me sinto muita mais segura na hora de tirar fotos, principalmente quando estou na presença de outras pessoas.

Ensaio fotográfico Templo das Gordas

Erica (Kika) – @kika_bm

Sou gorda desde que me entendo por gente ou até mesmo antes disso. Já emagreci, engordei incontáveis vezes nessa vida.
Engravidei com 30 e desde então, reencontrar a auto estima tem sido uma labuta. O corpo muda, a cabeça muda. As fotos me ajudaram a consolidar o meu reencontro com a mulher em mim, depois do processo de maternidade. A gente se reinventa, né? E nada melhor do que um olhar cuidadoso pra mostrar o que a gente, muitas vezes, esconde ou não tem tempo pra olhar.
Uma coisa bastante marcante dessas fotos é que recebi elogios da minha própria mãe, uma pessoa que sempre criticou meu corpo.
Outras pessoas que também sempre sugeriram, inclusive, a bariátrica pra mim, vieram falar que as fotos estavam fantásticas.
Acho que falta o olhar do corpo gordo como estético. Não é o status, mas é bonito. As pessoas não estão acostumadas a ver, não sai na mídia.

Para a realização deste dia maravilhoso algumas profissionais doaram seu trabalho e convido todos a curtir/seguir as páginas delas.

Maquiagem: By Caroline & Vannessa  e   Jéssica Gregório MakeUp&Ds  

Fotografia: Aline D’Unhão e  Gabriela Lima

A Lollaboo cedeu looks para quem quisesse usar nas fotos.

Foi um dia mega especial para as participantes e até para mim que acompanhei de longe. O exemplo dela é boa dica para todas nós, que tal unirem em suas cidades e fazer sessões de fotos como essas? *_*

07.06.18

Guest Post – SOMOS SEM RÓTULOS

Quando vi a Thalita Arruda compartilhando em seu Instagram fotos dela com sua amiga (magra) vestidas no mesmo estilo eu já amei de cara, sabendo da veia bloguística dela eu já a convidei logo para trazermos as fotos aqui para o blog e ela prontamente aceitou. <3

Confiram abaixo as fotos e também um pouquinho sobre elas e o projeto que as motivaram a fazer o ensaio “Somos sem Rótulos”.

 

Marília e eu somos amigas desde que me entendo por gente, ela sempre magérrima, alta, cabelão longo e “TOTALMENTE DENTRO DOS PADRÕES”.
Eu, sempre a gorda. A amiga de Marília gorda, a gorda da turma, a gorda do rolê, a “FORA DOS PADRÕES”…
Confesso que houve um tempo em que isso me incomodou um pouco, mas nunca deixei transparecer, achava que se eu externasse isso, as pessoas achariam que eu era realmente gorda! Vê que viagem (risos). Embora por vezes isso acontecesse, eu sempre fui muito bem resolvida com meu tamanho e com a minha beleza e pra mim, o “PADRÃO” é aquele em que cada ser humano se sente bem.
Sempre fui muito ligada a moda e Marília e eu sempre tivemos gostos parecidos (iguais), consequentemente, por inúmeras vezes saímos com a mesma roupa, ou muito parecidas.

O projeto Somos Sem Rótulos é da Débora Fernandes e assim que eu vi a primeira foto sendo postada, liguei a minha história e começamos a nutrir o desejo de expandir esse projeto tão lindo, que vem mostrando que a moda é sim para todo mundo e que não importa o seu tamanho, altura, peso ou cor da pele, o que realmente importa é o que somos de dentro pra fora!
O fotógrafo Tácio Arruda topou entrar nessa conosco e não poderia ser outra pessoa, pois ele consegue captar a energia, o que estamos sentindo e o verdadeiro significado de cada momento. A felicidade que sentimos cada vez que compartilhamos uma das fotos, e que as pessoas vem no direct compartilhar um pouquinho de suas histórias, não tem tamanho.
O nosso objetivo é levar encorajamento e empoderamento para cada mulher/pessoa que possa ser alcançada por nós., afinal, SOMOS SEM RÓTULO!

04.04.18

A vida fitness vai te adoecer

Quantas vezes já te perguntaram se você estava de dieta enquanto comia uma fruta ou almoçava salada? Aposto que todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez na vida. Essa situação mostra um pouco do problema que é a relação feita entre saúde e estilo de vida fitness, em que as pessoas colocam hábitos saudáveis como presentes só na rotina daqueles que buscam perder peso. Essa é uma atitude muito nociva, uma vez que o que o discurso fitness incentiva, na prática, é um estilo que está longe de ser saudável. A busca por saúde e hábitos equilibrados é uma necessidade biológica, e quando nós dizemos que para que ambos sejam atingidos é preciso adotar a mentalidade fitness, estamos incentivando que pessoas embarquem nesse mundo nocivo.

Saúde é o estado de bem-estar absoluto, e ser saudável significa ter um organismo equilibrado, dentro dos limites esperados para as diversas variáveis de um corpo (idade, gênero, genética, estilo de vida, local de residência). Esse equilíbrio é imprescindível e leva em conta questões como a adequação entre alimentação, exercícios, responsabilidades familiares, estudo e trabalho, uma vez que uma pessoa saudável também é aquela que conhece as necessidades específicas do seu corpo e da sua vida e mantém um estilo de vida adequado a elas.

Ser fitness é algo bem diferente, pois significa fazer parte de uma comunidade (e portanto, de uma cultura) que tem como objetivo a busca por um corpo ideal – magro e musculoso. Esse corpo é atingido com base em duas coisas: Atividades físicas regulares e dietas alimentares específicas.

Parece normal, né? Só que não é, porque esses exercícios físicos são extremos, incluindo normalmente a dor como parte do treino; e os hábitos alimentares são rígidos e limitados, normalmente fazendo parte de uma dieta insuficiente. As pessoas que optam por tentar um estilo de vida fitness são “engolidas” para dentro de uma rede em que perfis de inspiração fit compõem o cotidiano, com fotos no espelho da academia em todos os momentos do dia, dicas de dietas e pratos restritivos, incentivo a dietas como low carb, jejum intermitente e detox. O uso de lemas que incentivam a pessoa a não desistir e atingir o limite são comuns e conhecidos – “sem dor, sem ganho” é um deles.

Hoje, é praticamente impossível tentar ter uma vida ativa e saudável sem ter contato com essa mentalidade fitness, e isso é um problema principalmente porque ela coloca o corpo ideal como maior objetivo, objetivo esse que deve ser atingido a qualquer custo. Não demora muito para que as horas na academia se multipliquem, as refeições diminuam, o suplemento entre na dieta e as situações sociais que envolvem comida passem a ser evitadas.

É fácil perceber que a ideia de saúde e de mentalidade fitness são absolutamente opostas, uma vez que para ser fitness é preciso abrir mão do equilíbrio que é absolutamente necessário pra ser saudável. A mentalidade hegemônica que a gente tem hoje alia saúde à hábitos fitness, de forma que não se concebe mais que uma pessoa possa estar em busca de saúde sem estar em busca de um corpo magro. Isso gera uma legião de pessoas que saem em busca de hábitos mais benéficos e acabam acreditando que através de uma mentalidade fitness atingirão esse estado de equilíbrio, mas o que acontece é o contrário: As dietas restritivas, os períodos de jejum, o corpo levado ao limite, o desejo por um corpo que é praticamente impossível causa um declínio na saúde mental que é tido como normal para muitos de nós. Hoje, ser uma pessoa contente com seu corpo é quase um insulto, uma aberração, pois estamos sendo moldados para estarmos sempre em busca de um suposto aperfeiçoamento físico que nunca chega e sacrifica muito.

Algumas noções da mentalidade fitness são absolutamente contra intuitivas e, ainda assim, entram na mente de milhares de pessoas: Os prejuízos do pão e do leite, os benefícios de comer apenas 2 ou 3 refeições por dia, ou até mesmo de passar longos períodos em jejum absoluto.  Pessoas que estavam apenas em busca de um colesterol equilibrado e caminhadas mais frequentes passam a conviver com grupos que as fazem acreditar que isso não é suficiente, pois a saúde só vale quanto impressa no seu corpo na forma que os outros acham ser válida. Pouco importa os seus exames e hábitos, se o seu corpo não tem o formato tido como saudável, então não é suficiente.

E assim, cada um de nós tem um biótipo, uma predisposição genética pra ter certo tamanho, certa forma. As musas fitness são pessoas com metabolismos e biótipos muito específicos que, com dieta e exercícios, realmente conseguem adquirir barriga negativa e coxas separadas, mas essa é a realidade de pouquíssimas pessoas. Só que isso não é mencionado no discurso fitness, de forma que se incentiva a ideia de que quem não consegue atingir aquele corpo ideal apenas não tentou o suficiente.

O resultado é uma vida baseada em culpa e insegurança por causa de características que são genéticas, é a busca por um corpo impossível. O resultado são milhares de pessoas psicologicamente doentes, que têm corpos perfeitos e ainda assim de odeiam.

A gente precisa entender que é possível buscar saúde sem buscar o corpo perfeito, é possível ser saudável e não ser magro. É possível buscar um equilíbrio e um corpo único, que tem tudo que precisa, que funciona, que é confortável, e que não é nada parecido com os corpos do Instagram. Não dá pra jogar a saúde mental no lixo buscando um corpo que no fim do dia não vai te felicidade real.

Eu desenvolvi esse tema em um vídeo do meu canal, que você pode assistir aqui: