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Categoria: Comportamento

04.04.18

A vida fitness vai te adoecer

Quantas vezes já te perguntaram se você estava de dieta enquanto comia uma fruta ou almoçava salada? Aposto que todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez na vida. Essa situação mostra um pouco do problema que é a relação feita entre saúde e estilo de vida fitness, em que as pessoas colocam hábitos saudáveis como presentes só na rotina daqueles que buscam perder peso. Essa é uma atitude muito nociva, uma vez que o que o discurso fitness incentiva, na prática, é um estilo que está longe de ser saudável. A busca por saúde e hábitos equilibrados é uma necessidade biológica, e quando nós dizemos que para que ambos sejam atingidos é preciso adotar a mentalidade fitness, estamos incentivando que pessoas embarquem nesse mundo nocivo.

Saúde é o estado de bem-estar absoluto, e ser saudável significa ter um organismo equilibrado, dentro dos limites esperados para as diversas variáveis de um corpo (idade, gênero, genética, estilo de vida, local de residência). Esse equilíbrio é imprescindível e leva em conta questões como a adequação entre alimentação, exercícios, responsabilidades familiares, estudo e trabalho, uma vez que uma pessoa saudável também é aquela que conhece as necessidades específicas do seu corpo e da sua vida e mantém um estilo de vida adequado a elas.

Ser fitness é algo bem diferente, pois significa fazer parte de uma comunidade (e portanto, de uma cultura) que tem como objetivo a busca por um corpo ideal – magro e musculoso. Esse corpo é atingido com base em duas coisas: Atividades físicas regulares e dietas alimentares específicas.

Parece normal, né? Só que não é, porque esses exercícios físicos são extremos, incluindo normalmente a dor como parte do treino; e os hábitos alimentares são rígidos e limitados, normalmente fazendo parte de uma dieta insuficiente. As pessoas que optam por tentar um estilo de vida fitness são “engolidas” para dentro de uma rede em que perfis de inspiração fit compõem o cotidiano, com fotos no espelho da academia em todos os momentos do dia, dicas de dietas e pratos restritivos, incentivo a dietas como low carb, jejum intermitente e detox. O uso de lemas que incentivam a pessoa a não desistir e atingir o limite são comuns e conhecidos – “sem dor, sem ganho” é um deles.

Hoje, é praticamente impossível tentar ter uma vida ativa e saudável sem ter contato com essa mentalidade fitness, e isso é um problema principalmente porque ela coloca o corpo ideal como maior objetivo, objetivo esse que deve ser atingido a qualquer custo. Não demora muito para que as horas na academia se multipliquem, as refeições diminuam, o suplemento entre na dieta e as situações sociais que envolvem comida passem a ser evitadas.

É fácil perceber que a ideia de saúde e de mentalidade fitness são absolutamente opostas, uma vez que para ser fitness é preciso abrir mão do equilíbrio que é absolutamente necessário pra ser saudável. A mentalidade hegemônica que a gente tem hoje alia saúde à hábitos fitness, de forma que não se concebe mais que uma pessoa possa estar em busca de saúde sem estar em busca de um corpo magro. Isso gera uma legião de pessoas que saem em busca de hábitos mais benéficos e acabam acreditando que através de uma mentalidade fitness atingirão esse estado de equilíbrio, mas o que acontece é o contrário: As dietas restritivas, os períodos de jejum, o corpo levado ao limite, o desejo por um corpo que é praticamente impossível causa um declínio na saúde mental que é tido como normal para muitos de nós. Hoje, ser uma pessoa contente com seu corpo é quase um insulto, uma aberração, pois estamos sendo moldados para estarmos sempre em busca de um suposto aperfeiçoamento físico que nunca chega e sacrifica muito.

Algumas noções da mentalidade fitness são absolutamente contra intuitivas e, ainda assim, entram na mente de milhares de pessoas: Os prejuízos do pão e do leite, os benefícios de comer apenas 2 ou 3 refeições por dia, ou até mesmo de passar longos períodos em jejum absoluto.  Pessoas que estavam apenas em busca de um colesterol equilibrado e caminhadas mais frequentes passam a conviver com grupos que as fazem acreditar que isso não é suficiente, pois a saúde só vale quanto impressa no seu corpo na forma que os outros acham ser válida. Pouco importa os seus exames e hábitos, se o seu corpo não tem o formato tido como saudável, então não é suficiente.

E assim, cada um de nós tem um biótipo, uma predisposição genética pra ter certo tamanho, certa forma. As musas fitness são pessoas com metabolismos e biótipos muito específicos que, com dieta e exercícios, realmente conseguem adquirir barriga negativa e coxas separadas, mas essa é a realidade de pouquíssimas pessoas. Só que isso não é mencionado no discurso fitness, de forma que se incentiva a ideia de que quem não consegue atingir aquele corpo ideal apenas não tentou o suficiente.

O resultado é uma vida baseada em culpa e insegurança por causa de características que são genéticas, é a busca por um corpo impossível. O resultado são milhares de pessoas psicologicamente doentes, que têm corpos perfeitos e ainda assim de odeiam.

A gente precisa entender que é possível buscar saúde sem buscar o corpo perfeito, é possível ser saudável e não ser magro. É possível buscar um equilíbrio e um corpo único, que tem tudo que precisa, que funciona, que é confortável, e que não é nada parecido com os corpos do Instagram. Não dá pra jogar a saúde mental no lixo buscando um corpo que no fim do dia não vai te felicidade real.

Eu desenvolvi esse tema em um vídeo do meu canal, que você pode assistir aqui:

 


22.03.18

Gordofobia é opressão, e eu posso provar

Gordofobia – a grande maioria das pessoas que possuem acesso à televisão ou internet já teve contato com esse conceito em algum momento, mesmo que não tenha prestado atenção. O gordoativismo vem aos poucos se articulando no Brasil e adquirindo visibilidade, mas por ser um movimento ainda em construção suas reivindicações e pautas não tiveram décadas de consolidação e aperfeiçoamento, de forma que muitas das pessoas que já ouviram falar na luta dos corpos gordos não sabem exatamente quais são nossas demandas.

Isso gera aquela confusão que estamos cansados de ouvir: A ideia de que nós lutamos pelo direito de sermos considerados bonitos. Consequência disso é a frase “gordofobia não existe”, palanque daqueles partem de uma informação errada e buscam diminuir a importância política do movimento.

Gordofobia vai muito além da estética, e para auxiliar na argumentação com as pessoas que questionam sua existência, eu reuni os fatos básicos na hora de provar que essa opressão existe e é tão real quanto machismo, racismo e LGBTfobia.

Em primeiro lugar, podemos dizer que existe “opressão” quando um determinado grupo coletivo de pessoas é institucionalmente privado dos direitos básicos e constitucionais dos cidadãos, quando existe um sistema que exclui e violenta esses grupos. Isso recai na construção de hierarquias sociais, em que um grupo adquire poder sobre o outro por deter acesso os direitos que outros não têm – e que assim se tornam privilégios. Essa opressão faz uso de estigmas que desumanizam o grupo com base na palavra de autoridades que tentam justificar essas agressões. É opressão, por exemplo, não permitir que uma mulher realize aborto em vista de uma gravidez indesejada, mas não prever nenhuma punição ao homem que escolhe abandonar esse filho antes mesmo de nascer.

Dito isso, precisamos estabelecer que o conceito de gordofobia presente no senso comum realmente não preenche os “requisitos” para se tornar uma opressão, pois ela é diariamente confundida com pressão estética. Explicando: Pressão estética é a imposição social que exige das mulheres perfeição física. Ela atua no campo individual, causa sofrimento psicológico e não pode ser mensurada.

Gordofobia não tem nada a ver com pressão estética, pois é uma violência que atinge um GRUPO de pessoas e lida com restrição de direitos básicos, e não com sofrimento pessoal. Ela atinge TODAS as pessoas gordas – mesmo que se achem lindas, mesmo que não sofram por serem gordas, mesmo que nem saibam o que essa palavra significa.

 

gordofobia existe

Por que, então, gordofobia é uma opressão? Porque ela retira das pessoas o direito ao atendimento médico no SUS, a uma disputa justa por vagas de emprego, ao uso dos transportes públicos e privados, à permanência em centenas de locais de convívio social.

A opressão dos corpos gordos na saúde fica clara quando os assentos, macas, leitos, cadeiras de rodas e equipamentos dos hospitais possuem limites de peso insuficientes. Quando uma pessoa gorda é negligenciada por seus médicos, tendo em vista apenas seu peso e as doenças que não tem, e por isso não recebe acompanhamento e tratamento adequados. Quando remédios emagrecedores e cirurgias eletivas são prescritos diariamente, apesar de todos os seus absurdos efeitos colaterais, porque ser magro “vale o sacrifício”.

 

 

gordofobia existe

Também são oprimidos os corpos gordos quando sete em cada dez empresários brasileiros os discriminam em seleções de emprego, mesmo que isso seja inconstitucional. Quando precisam “compensar” sua forma com currículos extensos, porque o setor popular que mais emprega no Brasil é o que menos contrata pessoas gordas. Quando vencem a tal “meritocracia” e passam em concursos públicos, mas tem suas vagas ameaçadas por testes de aptidão que utilizam uma medida de saúde obsoleta.

Quando se trata do direito de ir, vir e permanecer, também vemos opressão aos corpos gordos. Fazem dos assentos grandes inimigos, pois ônibus, trens, aviões, salas de aula, salas de cinema, bares, restaurantes fazem questão de não comportar corpos maiores. Se precisarem utilizar o transporte público, são humilhados por catracas que entalam e geram hematomas. As pessoas em cadeiras de rodas entendem – os banheiros e portas do dia a dia não foram feitos para comportarem corpos diferentes. Enquanto pessoas de manequim 44 sentem dificuldade em escolher uma peça de roupa diante de tantas opções, aquelas que vestem 60 contam nos dedos as lojas em que conseguem achar peças que sirvam.

 

Digo com extrema sinceridade que gostaria muito que meu problema fosse apenas beleza. Gostaria muito que, ao sair de casa de manhã, a qualidade do meu look fosse a maior preocupação na minha cabeça, mas infelizmente não é. Eu estou preocupada com o preparo psicológico para a negligência médica que vou sofrer semana que vem, com as dores de assistir uma aula sentada em uma cadeira que não me cabe, com o trabalho extra que vou ter para provar ao meu chefe que não sou preguiçosa e desleixada como ele espera que eu seja, com a minha bolsa que ficará no corredor do banheiro público pois não cabe junto comigo dentro do box.

Beleza e autoestima poderiam ser os maiores problemas que pessoas gordas enfrentam, mas não são. A patologização é. A estigmatização é. A retirada dos direitos de ir, vir e permanecer; de atendimento médico decente; de possibilidade de sustento financeiro; a retirada do direito ao respeito é o nosso problema.

E não é só isso: A patologização e estigmatização dos nossos corpos é diária e ferrenha, justificada por autoridades fraudulentas, e esse assunto é longo demais para ser conversado em apenas um post – por isso eu fiz um vídeo. Eu e a Carine Martins rebatemos algumas pessoas que não acreditam na existência da gordofobia e provamos que ela existe, e precisa ser combatida.

 

 

01.03.18

Será que o plus size serve pra gorda?

O gordoativismo é um movimento social que cresce e se consolida diariamente. Uma das reivindicações mais urgentes que fazemos é a da acessibilidade, o direito a tudo que é necessário para nosso acesso e permanência em sociedade. O que muitos esquecem é que existe algo que vem antes das catracas e das cadeiras: A roupa. Não podemos ir a lugar algum se não estivermos vestidos, e quando se é uma pessoa gorda cujo manequim vai além do 54, essa dor de cabeça toma proporções que jamais seriam imaginadas por uma pessoa magra.

Mesmo que a indústria de moda plus size brasileira tenha crescido muito nos últimos 5 anos fazendo uso da bandeira de democratização da beleza, é um fato que a parcela de consumidoras que mais precisa se beneficiar desse nicho de mercado segue sendo ignorada. Aquelas pessoas que chamamos de gordos maiores, que sofrem muito mais o peso da gordofobia, também enfrentam a falta de peças de roupas fabricadas em seus tamanhos. E se analisarmos como vem se desenhando essa indústria, isso não é surpresa.

Existe hoje algo que eu chamo de padrão plus size, um ideal de “corpo gordo” higienizado e padronizado, que encontramos nas modelos utilizadas na maioria das lojas que dizem vender roupas para gordos. Esse corpo tem seios e quadris grandes, mas permanece com barriga, braços e rosto pequenos, além de uma surreal cinturinha. Ele existe para atender as regras de uma sociedade que, buscando vender um produto, precisa que ele não ameace as suas estruturas fundamentais – nesse caso, a gordofobia e o machismo. Assim, a moda plus size se tornou um meio de segregar as gordas bonitas e “aceitáveis” daquelas que ainda são consideradas excessivas demais para terem seus direitos atendidos.

Olha que legal! Um bando de modelo plus size sem barriga na campanha da marca Slink que diz para as mulheres amarem seus corpos como são.

 

As imagens das modelos na maioria das vezes ainda contam com um excesso desnecessário de edição. 

Como resultado desse problema, temos um mercado plus size que nos oferece peças com tamanhos limitados, preços altíssimos, modelos quase magras e difícil acesso, além de pouca visibilidade midiática para as marcas pequenas que querem fugir dessa regra. Mesmo que tenhamos várias marcas de roupas plus size, a maioria delas trabalha com tamanhos insuficientes. É comum vermos novas lojas abrindo com peças até o tamanho 54, enquanto
aqueles que vestem 58, 60, 62 ou mais permanecem precisando viver com apenas 2 ou 3 lojas disponíveis. Além disso, os preços vão muito além do necessário para custear a maior quantidade de tecido e linha, sendo normal encontramos liquidações plus size em que o produto mais barato custa 70 reais. Como se já não fosse dificuldade suficiente, descobrimos ainda que a maior parte do mercado plus size se encontra na internet, dificultando o acesso de quem não sabe ou não pode comprar online. E das modelos nem se fala: Sendo magras curvilíneas ou
gordas bem pequenas, fazem com que as consumidoras maiores tenham muita dificuldade na hora de imaginarem em seus corpos as roupas que vão comprar. Isso significa o que? Muito dinheiro gasto trocas de peças que não serviram.

Mesmo que sejam menos conhecidas e valorizadas pela mídia, podemos respirar mais aliviados com as poucas marcas que tentam fugir desse padrão e criar uma indústria plus size que realmente representa a atende os corpos gordos. Lojas como Lollaboo, Zuya, Rainha Nagô, FALA e F.A.T. produzem peças em tamanhos mais abrangentes e campanhas com modelos verdadeiramente gordas, como Bia Gremion. As peças permanecem mais caras que aquelas vistas em araras magras, mas são tranquilamente justificadas pelo alto custo da produção independente.

 

plus size serve pra gorda

A Rainha Nagô usa em suas campanhas modelos, clientes e até mesmo seus proprietários.

 

plus size serve pra gorda

Modelos em campanha da Lollaboo.

São os esforços dessas pequenas empreendedoras que dão a certeza de que não, não estamos exigindo demais. É possível existir um nicho de moda acessível, abrangente e honesto, mas para que isso tome forma é preciso que as marcas plus size que permanecem nesse padrão insuficiente saibam que os consumidores percebem e desaprovam. Precisamos exigir, reivindicar, fazer com que as grandes e médias marcas enxerguem e valorizem as consumidoras
gordas que exigem dignidade na hora de se vestir. E como fazemos isso? Dando prioridade aos pequenos produtores e demonstrando sempre que possível a nossa insatisfação. O exemplo da Ashua, linha plus size da Renner que aumentou sua grade de tamanhos após uma estreia que gerou centenas de reclamações, nos prova que para lucrar essas empresas precisam de nós e, por isso, vão ter que nos ouvir.

Escolhi falar justamente dos problemas da moda plus size na estreia do meu canal no youtube. Por sentir falta de conteúdo objetivo e útil ao gordoativismo em forma de vídeo, resolvi botar a mão na massa e fazer eu mesma um canal que fale sobre a política e a realidade do corpo gordo.

Caso queiram saber mais sobre esses e outros assuntos, assistam o vídeo e se inscrevam no canal pra não perder os próximos. 😊

 

30.01.18

Guest Post – Sou positiva. Sou soropositiva

Convidei a querida Letícia Assis, para um guest post contando sobre sua vivência como soropositiva, acredito que a experiência dela pode ser um alerta para muitas de nós. 


Há pouco mais de um ano minha vida mudou. Como jornalista, não gosto de enrolar e talvez por isso guardei comigo a forma de resumir assuntos nas primeiras linhas. Em novembro de 2016 descobri portar o vírus do HIV.

Agora, com calma, posso contar como foi e as razões pelas quais há alguns meses resolvi compartilhar essa história.

Tenho 40 anos, sou comunicadora, com formação e carreira em jornalismo. Também sou cozinheira profissional, mantenho uma empresa de eventos e sou cosmetóloga natural, entre outras aventuras.

soropositiva

Tenho uma filha, sou casada há quase uma década e, de alma cigana, já vivi em muitas partes desse Brasil. Dei aulas, aprendi, dei cabeçadas e me permiti. Isso inclui a parte sexual. Porém – ironicamente ou não – apesar de ter sido uma mulher de muita atividade, sempre gostei de ter alguém, de me apaixonar, das delícias e agruras de uma vida a dois. Fiz muito sexo sim, de muitos os tipos, sabores, tons, geralmente precavida de tudo até por ter a lua em virgem. Simm, havia esquecido de mencionar que minha maior amante nessa vida sempre foi a intuição. Graças a ela, conheci mil formas de espiritualidade, da astrologia à umbanda, meu pé no chão, creio, definitivo.

Pois essa canceriana, com ascendente em peixes, lua em virgem, vênus em touro; filha de Iemanjá com Xangô; portadora do Ohikari Messiânico e iniciada na Escola de Mistérios se viu sem chão no dia 28 de novembro de 2016, após 20 dias de coma induzido graças a um quadro de pneumonia severa. Sem chão eu estava mesmo porque ainda não andava e foi na UTI que aquele médico lindo e atencioso me deu a notícia. Ele já tinha contado ao meu marido e à minha mãe. Resolveu ele mesmo me falar, longe de todos, sobre os primeiros indícios do que havia acontecido comigo.

Para minha surpresa, eu estava com esse vírus tão assustador há muito tempo. Meu último teste de sorologia tinha sido feito na gestação da minha filha, hoje com 12 anos. Depois disso, até fiz um teste num posto e nunca fui buscar. Sabe-se lá o porquê… E as razões que me fizeram chegar ao limite do meu corpo. Logo eu, que sempre preferi saber das coisas de cara, por mais doído que fosse, achei que não era importante.

Uma sombra pairava sobre mim. Eu não sabia bem a razão. Só sentia. Mas como nenhum médico desconfiou, nem em pequenas cirurgias, nem olhando meus exames, seguia vivendo. Ao mesmo tempo, mantinha meu namoro e depois meu casamento com o Tiago sem uso de proteção. Secretamente, meu medo maior era que viesse dele algum problema pela visão que ele mesmo tinha do mundo. E não veio. Somos o que se chama de casal sorodiscordante.

Não veio dele e de nenhum dos parceiros de uma única noite que tive. Veio do namorado mais careta e mais retrógrado que tive. Um cara cheio de fantasias, sem coragem pra admitir seu verdadeiro eu, sociopata, agressivo, cheio de “poréns”, abusivo e que até minhas roupas queria controlar. Ou seja, alguém pelo qual até hoje não sei o porquê de ter me interessado. Talvez porque ele mentisse melhor do que eu. E, na época, eu era boa na arte de enganar as pessoas. Me senti desafiada a me relacionar com aquele mito da falsidade. Ou a sombra dele ofuscava a minha. Sei lá. Gostei muito dele. Só caí fora porque vi que estava indo pra um caminho que não me agradava. Mentira. Tenho certeza que caí fora graças aos meus guias e também ao Tiago – que de amigo passou a ser meu amante e depois namorado. Era um egum sem luz contra um exu tinhoso. O Exu sempre vence!

Ativismo e o Sim sou Diva

Há algum tempo, eu vinha participando de eventos e até promovendo alguns. Cheguei a criar um coletivo feminino, chamado Sim sou Diva. Estivemos em toda mídia possível local e nacional nos dois anos em que existimos. E num desses eventos (o Divas do Cinema Plus), eu organizei tudo e simplesmente não pude ir. Minha respiração era tão frágil, que eu mal cruzava uma rua sem chorar de dor no peito. O pulmão estava se entregando…

Foram nem dois dias para que eu fosse internada e logo estava entubada, inconsciente, na UTI. Mesmo assim, a descoberta do HIV só aconteceu por uma enfermeira que insistiu para que o médico examinasse minha boca, lotada de cândida, há meses. Eu nunca desconfiei que aquilo fosse indício de HIV. Pra mim era apenas baixa imunidade.

Teste certeiro e carga viral acima de 55 mil cópias. E daí o resto eu já falei.

Então, por muito tempo me escondi, com medo da rejeição. Contei para poucos amigos e alguns familiares. Aos poucos, fui tomando coragem, lendo depoimentos, voltando a trabalhar. Percebi que minha reclusão era a negação da minha luz e que eu precisava sim me expor. Eu lia pessoas falando de coisas acerca do vírus que eram risco iminente; aquilo me incomodava. Foi então que gravei o primeiro vídeo. Fiz umas 10 versões até que um ficou simples e natural:

Altos e baixos

Um dos tabus do HIV é pouco ou nada se falar a respeito do humor severamente afetado pelas medicações. Há quem consiga manter uma constância, mas no geral – e no privado – quase todo mundo relate instabilidade emocional. Num dia estamos bastante confiantes e no outro já planejamos testamento. Isso não tem tanto a ver com personalidade e sim com as reações químicas que o coquetel promove no cérebro.

Para quem não sabe, qualquer medicação antirretroviral penetra as barreiras neurocerebrais. Os efeitos variam muito: vão de alucinações à insônia leve, passando por euforia e tristeza, à praticamente nada. Cada organismo reage de uma forma e sabemos que pesquisas sobre atividade cerebral ainda são bastante inconclusivas seja qual for a razão.

Então, o portador de HIV está sujeito a variações de humor bem acima da média. Se tens algum amigo, parente, colega de trabalho ou companheiro em tratamento, um conselho: seja tolerante. Não, você não sabe o que é estar na pele dele, na nossa pele. E não é por piedade; não precisamos disso. É por exercício de humanidade, de compreensão.

Aliás, falando em piedade, é bem chato ouvir frases do tipo das pessoas. Até compreendo que pouco se fala sobre o assunto, pouco se conhece sobre tratamentos e reações e o estereótipo da morte rondando ainda é muito presente na sociedade. Mas ACREDITE: não precisa sentir pena. Ofereça seu apoio, seu abraço, seu ombro e principalmente o seu sorriso. A alegria cura, acredito muito nisso.

As dificuldades

Ouvi de várias pessoas quando contei que elas tinham um primo, um amigo go, blablabla, e que era só tomar o remédio e teria uma vida normal.

Não. NÃO! O coquetel é o primeiro passo, porém o caminho tem tanta pedra, gente, que não cabe em definições simplistas. Acredito que existam casos bem simples sim, mas não é o meu e não é o de muita gente.

Primeiro que há vírus mais resistentes (prazer!) do que outros. Segundo que as relações psicológicas, de trabalho, de firmeza da mente ou espiritualidade, de alimentação, DE OPORTUNIDADES DE TRATAMENTO PARALELO E DE APOIO são muito diferentes. Eu me trato pelo SUS. Não tenho queixas, exceto pela demora no resultado dos exames e das genotipias. Meu médico, Dr. Juliano, é excelente, atencioso e sempre busca informações adicionais quando precisa. A equipe DST do posto de São José e de Biguaçu sempre foi solícita dentro do que o serviço público e a situação em que o país se encontra permite.

Por um tempo, tive plano de saúde. Pude fazer check up cardiológico, endocrinológico, nutricional, ginecológico e pulmonar. Santa Catarina tem uma rede de medicamentos bem razoável e poucas vezes tive que peregrinar por medicação paralela. A do HIV nunca faltou.

Mas sei que há regiões do país onde falta até o coquetel. Pra marcar consulta é um inferno e por aí vai. Então, tenho consciência que sou privilegiada.

Outro privilégio é viver em um sítio, respirando ar puro, comendo coisas orgânicas. Isso faz muita diferença. Enfim, não dá pra simplificar e por todo mundo na mesma sacola.

Mesmo assim estou numa situação crítica: carga viral alta, CD4 baixíssimo, CD8 razoável e uma possível resistência medicamentosa.

Daí, pessoas, ouvir de quem você ama que te falta gratidão, que te falta perdão, que teu corpo está assim por intransigência, é bem desconfortável, pra não dizer cruel. Veja bem: pode até ser que seja verdade, mas nesse momento não quer ler nem ouvir isso. Se você não tem um abraço ou um sorriso pra me dar, nem diga nada. Não é momento de me julgar nem de apontar meus erros, até porque quem nunca errou? Só um parênteses.

Melhor então me deletar como muita gente fez ao ver o meu primeiro vídeo. É mais honesto e que cada um lide com sua forma de ver a vida.

Estereótipos

Por fim, para que esse texto não vire um tratado e agradecendo o precioso convite da Kalli, a quem admiro faz tempo, uma das razões pelas quais resolvi me expor é por ler comentários em grupos e posts, não necessariamente ligados aos HIV, porém bastante preocupantes.

Um deles diz respeito à orientação sexual. A AIDS se firmou como doença de gay, mas há bastante tempo se mostrou poderosa em qualquer âmbito socionormativo. O número de mulheres infectadas que são casadas, heterossexuais e com apenas um parceiro na vida é assustador.

Então, não confie. Ame sim, mas ame mais a você. Até porque milhares de pessoas sequer sabem que portam o vírus e as mulheres são mais vulneráveis por questões fisiológicas e pelo poder do sêmen; poder de contágio que os líquidos vaginais possuem em bem menor proporção.

soropositiva

O outro tem relação com biotipo. Sou uma mulher gorda. Apesar de ter emagrecido, continuo gorda e provavelmente morrerei gorda. Logo, ser gordo não te protege de nada nem denuncia perfil saudável pra DST. Gordos transam como outro tipo de pessoa qualquer. É incoerente, inocente e negligente que você não se proteja porque seu parceiro ou parceira é gordo, apenas pelo estereótipo de que aidético é magro. Estamos em 2018, gente! E o HIV evoluiu mais do que muita gente…

É isso. Teria mais a dizer, mas aos poucos vou compartilhando nos vídeos e, quiçá, na página do Sim sou Diva www.simsoudiva.com.br e www.facebook.com/soudivaplus, a qual pretendo alimentar melhor em breve.

Por enquanto, sigo com minhas incertezas, com muita fé e com meus sabonetes, cosméticos e quitutes, e às vezes palavras e conjecturas.

23.01.18

Verão Sem Neuras – Ano VI

Quem acompanha o blog já sabe que quando chega as estações mais quentes do ano, tem também o verão sem neuras por aqui. O nosso #ProjetoVerãoSemNeuras acontece mais ou menos entre os meses de Setembro e Abril, dura bem mais que os 3 meses do verão da teoria, mas acompanha nosso verão brasileiro na prática.

É sempre um prazer poder compartilhar as fotos de momentos de diversão de tanta gente maravilhosa. <3

Como eu sei que tem muita gente que ainda não acompanha as redes sociais, eu trago para o blog uma pequena amostra das fotos que já postei este ano. (Eu super queria trazer todas, mas não consigo indexar muitas no post e ficaria imenso, mas para ver todas no Instagram é só clicar aqui e no Facebook aqui).

Cada foto que é enviada para o #VerãoSemneuras, é um pouquinho a mais de incentivo para quem ainda não se permitiu curtir o verão, somos o tempo todo “podados” e para muita gente ainda é preciso um caminho para se permitir.

Mas em 6 anos eu vi mudanças maravilhosas, eu também mudei muito e me vejo cada vez mais “livre” e sem neuras, a desconstrução é diária e ninguém consegue se livrar de neuras de anos em um só verão.

Então eu mais uma vez venho convidar TODOS VOCÊS, para ainda neste verão se permitirem curtir um dia de prais,piscina ou até chuveiro… Não passe calor “atoa”, não precisa ir de biquíni ou maiô, vá como se sentir mais confortável.

E para quem quiser fazer parte do #VerãoSemNeuras, é só vir, o projeto é para todos. <3