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05.01.18

“Meus” desejos para a Moda e o Mercado Plus Size em 2018

Para começar o ano e renovar as esperanças de uma moda realmente inclusiva eu resolvi fazer umas listinhas de mudanças que espero ver na moda e no mercado plus size em 2018.
Embora o título do post eu cite que são meus desejos, eu já ressalto que não é só sobre os meus desejos que falo, são também os desejos de um montão de gente que me procuram nas redes sociais e no e-mail com seus questionamentos e necessidades.

Roupas que realmente vistam corpos gordos

Já faz um tempo que eu venho falando sobre a necessidade das marcas vestirem além do manequim 54, inclusive já fiz uma listinha tempos atrás aqui no blog (clica aqui) com marcas que atendem acima do manequim 54. Mas hoje eu percebo que mesmo que uma marca atenda até o tamanho 60 ela ainda não é totalmente inclusiva e precisa ampliar sua grade para poder vestir cada vez mais pessoas gordas.
Eu entendo que para uma marca fazer X manequins é um preço e fazer 3 tamanhos a mais do atual que trabalham pode ser inviável para a realidade atual da empresa, mas eu peço (em nome de um monte de gordos maiores) que vocês empresários do setor pensem com carinho e que neste ano de 2018 ampliem ao menos um tamanho em suas grades, é algo possível e que além de render mais vendas vai dar mais opção de escolha para quem veste tamanhos maiores.

Discurso neutro sobre todos os corpos

Eu ando EXAUSTA de ver marcas (pessoas que as representam) que vendem para mulheres gordas agindo de forma depreciativa em relação a comidas e corpos.
Neste ano eu não quero ver marca dizendo que atende corpos com a verdadeira beleza (que vestem do manequim x ao y e excluindo vários outros corpos), também adoraria não ter que assistir marcas fazendo piadinhas com termos como gordice e relacionando comidas a corpos gordos, e muito menos gostaria ver declarações sobre estar feia ou inapropriada para aparecer no stories da empresa.
Ninguém e nenhuma marca é obrigada a levantar a bandeira da positividade corporal, mas também não deveria gravar stories de autodepreciação, essas “brincadeirinhas” muitas vezes detonam com a autoestima de quem assiste.

Representatividade nas fotos

Este ponto já foi pedido e implorado demais, mas infelizmente as marcas seguem negando associar sua imagem com pessoas gordas. Graças a toda essa falação que acontece faz uns anos, algumas marcas já acordaram para esse ponto e eu tenho como foco atual enaltecer essas cada vez mais essas que estão nos brindando com representatividade. Não queremos só pessoas com tamanho acima de X em todas as campanhas, mas queremos que as marcas diversifiquem e não fique apenas em um padrão de modelo que não representa a grande maioria de suas clientes.

Produção sem exploração

Sei de uma marca plus size que importa da China já faz uns anos, recentemente soube de uma que tem “bolivianos” trabalhando na sua produção… Em nenhum dos casos eu afirmaria que se trata de casos de exploração, mas também não acredito serem empresas totalmente engajadas nos direitos trabalhistas. Estes são dois casos isolados, mas eu acredito que exista muita gente recebendo bem pouco (abaixo do justo), para costurar as roupas que depois serão vendidas por preços bem altos, sabemos que o mercado plus size em geral trabalha com preços altos. Então eu desejo mais consciência das empresas e que valorizem mais todos os seus colaboradores.

Preços mais populares

Eu entendo perfeitamente que cada marca tenha seu nicho, e algumas marcas são mesmo mais caras e vão continuar sendo, mas adoraria ver mais marcas trabalhando com preços populares no mercado plus size. Isso é muito importante para que ocorra a inclusão das pessoas gordas de todas as classes sociais na moda.

Originalidade, criatividade e verdade

Para quem produz é importante ser original e colocar nas suas peças algo que seja a cara da sua marca, o ctrl+c e ctrl+v de outra marca acaba por tornar a sua marca algo menos atrativo para o consumidor. Se inspirar e criar uma nova versão é sempre muito mais legal.
Além da falta de originalidade, é muito comum no mercado plus size marcas dizendo que produzem suas coleções sendo que na verdade é revenda e tem várias marcas com os mesmos produtos. Não tem problema nenhum em revender peças e não entendo essa necessidade de se intitular fabricante sem ser que acontece no plus size.
O mercado plus size ainda é muito pequeno e é fácil para qualquer pessoa perceber essas “falhas”, e isso compromete as empresas e o todo mercado, que se torna algo muito menos profissional.

Moda para os Gordos

A moda masculina plus size é algo muito precário ainda, um número bem baixo de marcas e uma grade que não atende aos gordos maiores. Precisamos de mais marcas investindo no plus size masculino e também que ela pensem em vestir bem além do GG, os homens gordos também merecem melhores opções na hora de comprar.


Pós venda de compras virtuais

Quem se dispõe a vender tem que se preocupar com o pós venda, eu vejo TANTA reclamação que seria resolvida com um simples envio de rastreio por e-mail que chega a ser deprimente. Não ignorem nunca seus clientes, um cliente insatisfeito é a pior propaganda, mas um cliente gordo insatisfeito é uma pessoa que possivelmente vai parar de comprar online e é online que nós gordos temos as melhores opções.

Ousadia e rebeldia

Talvez ao começar ler o post vocês possam ter pensado que nele eu pediria algumas peças x ou y e não foi bem assim, o que eu mais quero é ver o mercado crescendo e atendendo cada vez mais pessoas gordas. Mas eu quero também que os estilistas parem de temer tanto e abusem mais na hora de criar para gordos, nas atuais coleções de verão eu fiquei super assustada com a quantidade de peças de manga longa em várias marcas.
Estou daqui torcendo para que as pessoas que tem o poder de decisão de escolha das peças da coleção (nem sempre é o estilista), possam ousar mais e até mesmo serem rebeldes e entender que nós pessoas gordas já não nos prendemos mais em regras do que pode ou não, na verdade sonhamos mesmo em ter as mesmas peças da moda “padrão” disponíveis na moda plus size.

Fiz esse textão com pontos que eu julgo importante serem melhorados nas marcas plus size, mas isso é a minha visão e não significa ser nenhuma verdade absoluta.
E vocês possuem algum ponto que gostariam de citar ou acrescentar? Sintam-se livres para comentar e juntos ajudarmos as marcas a perceberem o que desejamos.

6 Comentários // Deixe o seu!

  • Rosane Gomes says:

    Excelente reflexão. Você conseguiu resumir os desejos de muitas pessoas que tenho lido e ouvido quando falam sobre moda para pessoas gordas. É um texto de referência! Parabéns!

    • Kalli Fonseca says:

      Obrigada querida <3

      Que a gente chegue no fim do ano com vitórias em relações a estes desejos.

  • Oi Kalli!
    Sempre um prazer ler um post seu, muito pertinente e interessante.
    Gostaria de participar da sua postagem, fazendo alguns comentários sobre a minha experiência no trabalho com confecção Plus Size. Um trabalho que começou há um ano e meio, sem nenhuma experiência prévia no ramo. Comecei como consumidora insatisfeita, que ansiava por roupas melhores, e norteei minha empresa (e ainda o faço) baseada nisso.
    Claro que entre o desejo – de fazer roupas Plus Size bonitas, de bom caimento, qualidade, preço bom para atender a todos os tamanhos– e a realidade, tive que aprender muitas coisas.
    Como você, comecei pela numeração das peças: – uma marca que pretenda fazer peças para pessoas que estão fora do padrão da moda convencional deve abraçar todas as mulheres, seja qual número se vista.
    Numa marca de tamanhos pequenos a numeração na roupa é P, M, G ou 36, 38, 40, 42, 44, com alguma variação para mais ou para menos. Então uma marca de tamanhos pequenos faz no máximo 5 numerações de roupas.
    Já as numerações Plus Size são mais abrangentes, digamos que 46, 48, 50, 52, 54, 56, 58, 60, 62, 64. São 10 numerações para produzir.
    E, se for seguir a modelagem tradicional, que usa a variação de um número para outro de 4 em 4 centímetros, isto se torna muito complicado. É muito volume de produção para ser viabilizado financeiramente.
    O que muitas marcas Plus Size fazem hoje, para conseguir abranger toda a numeração sem ter que produzir 10 tamanhos em sua grade é aumentar a numeração por peça. Por exemplo, uma marca que use G1, G2, G3, G4, G5, entre o G1 e o G2, em vez de ter o típico aumento de 4 centímetros em cada modelagem, aumenta em 6, 8, 10, até 12 centímetros, dependendo da marca, como meio de abranger todos os tamanhos.
    Na minha primeira coleção fiz peças de numeração 46 ao 54. De tamanho bom, real. Como fiz muitas peças em tecido plano, que ficavam ajustadas ao busto e cintura, o tamanho precisava ser bem certo, não tinha como uma dessas peças caírem bem em uma mulher com 110 e outra com 120 cm de cintura, precisava de menos diferença entre as numerações. Então percebi que precisava me ajustar ao público ou minhas roupas não iriam vestir.
    Me propus a vestir mulheres Plus Size, inclusive dos maiores tamanhos, então minhas roupas tinham que vestir todas as mulheres Plus Size.
    Assim, com bastante estudo e trabalho, já a partir da segunda coleção consegui disponibilizar peças mais abrangentes, até o tamanho 60, porém, sem perder a qualidade no caimento. Não é para “enfiar no corpo”, é para servir no corpo e cair bem, certo?
    Por isso, acho que é isso que muitas marcas com grade limitada poderiam fazer: planejar cuidadosamente as peças para que elas se adequem a um número maior de mulheres por numeração.
    Quanto a produção e valores das peças, vejo todos os dias uma exploração desonesta das pessoas que trabalham no mercado da confecção.
    Fora o valor do tecido, o que sobra de custo na peça é a mão de obra. É na mão de obra que as confecções tentarão segurar os custos. E, é aí também que começam as atrocidades que você relatou. Seja para vender mais barato ou para ganhar mais, usa-se mão de obra com um pagamento muito injusto. Nós vemos esse tipo de trabalhador quase escravo todos os dias tanto em marcas famosas que vendem caro, bem como em roupas baratas vindas da china, feitas por pessoas remuneradas com salário muito desonesto. Isso, além de desumano, destrói o mercado (má qualidade sempre destrói o mercado).
    Como marca pequena, é quase impossível chegar a um valor dos que vendem roupas da China. Não dá, não tem como fechar a conta.
    Procuro colocar uma margem de lucro honesta, sem exageros sobre as minhas peças (ainda mais considerando que trabalho com atacado), mas, mesmo assim, algumas vezes escutei que minhas roupas são de um valor elevado.
    Nunca conseguirei chegar ao custo de uma peça produzida com tecido descartável e mão de obra quase escrava, mas quero sim colocar em meu catálogo cada vez mais peças que possam ser mais acessíveis ao público de todas classes sociais. Usando modelagens mais simplificadas, o custo do corte e da costura ficam menores, por ser mais simples de fazer, por exemplo, bem como buscar alternativas em tecidos.
    A mão de obra é a única coisa que não altero.
    Ainda, prefiro manter o trabalho com as costureiras da minha cidade e tirar da minha porcentagem de lucro para manter uma boa e justa relação com elas.
    Dessa forma, acho que é possível serem feitas roupas com preços mais acessíveis e com qualidade.
    Sobre o tópico representatividade nas fotos, quero ter sim mais representatividade nas fotos publicitárias da minha marca.
    As 2 modelos que trabalharam para mim vestem 48/50, mas continuarei a buscar modelos que usem uma numeração maior para trabalharem também na próxima coleção. Ver seu corpo representado nas roupas da marca que gosta é certo e digno e nossa missão é incluir as pessoas.

    • Kalli Fonseca says:

      Simone eu fico extremamente feliz em vc ter gastado um tempinho explicando o lado de fabricante e demonstrando que é possível sim ir melhorando e que esse é seu alvo. <3

      Eu amo ver pessoas na moda plus size que estão disposta a fazer a diferença e eu vejo isso na sua marca cada vez mais. 😉

  • Nossa que texto perfeito! Faço minhas as tuas palavras, por que as suas constatações são verdadeiras e estão aí para quem quiser ver. Que as marcas leiam, e que verdadeiramente possam se basear nisso!

    • Kalli Fonseca says:

      Ana Paula! Obrigada querida <3 vamos torcer para que as marcas sigam melhorando, isso é bom para todas nós. Bjm

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