Categoria: Comportamento

22.04.10

Dormindo com o inimigo. Mulher, feiúra e a busca do corpo perfeito

O primeiro dia de um obeso numa academia de ginástica é sempre um evento. O meu, por exemplo, foi assim: meu marido precisou ficar meia hora dentro do carro, em frente à academia, me convencendo a entrar. Eu pensei, só tem gostosona lá dentro, o que é que eu vou fazer nesse lugar?

No filme Tudo Sobre Minha Mãe, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, ilustra bem a idéia do sujeito que deseja mudar sua aparência para ficar cada vez mais único, de acordo com o que queria parecer. Assim, o personagem do filme, um transexual chamado Agrado, que já havia realizado inúmeras intervenções plásticas, dizia: Uma pessoa pode se dizer mais autêntica quanto mais se aproxima de como sonhou ser.

Mas com o que sonha grande parte das mulheres em nossos tempos? A gordura acabou com minha vida, dizia uma entrevistada, em uma matéria da Folha de S. Paulo. Cadernos de saúde, academias de ginástica, lojinhas de produtos naturais e cirurgias plásticas cada vez mais numerosas, parecem nos dizer que a moda do corpo magro, esbelto, sarado e cuidado chegou para ficar.

Mais ainda –, ai de quem desses parâmetros se afastar!!! Em recentes pesquisas que vimos realizando e cujas falas reproduziremos ao longo deste trabalho, pudemos observar, não apenas o caráter impositivo de uma estética que nada tem a ver com o biotipo brasileiro, como o profundo preconceito que as mulheres feias (leia-se gordas) sofrem.

Sem caráter, sem força de vontade e vistas como desleixadas, a anatomia feminina deixou de ser um destino para ser uma questão de disciplina: se não conseguimos agenciar nossos corpos, como seremos capazes de agenciar nossas vidas ou nossos empregos? Recente pesquisa feita pelo New York Times aponta para uma enorme diferença salarial (quando são contratadas!) entre mulheres bonitas e feias.

A moralização do corpo feminino, como aponta Baudrillard em seu livro A sociedade de consumo, nos leva a encarar a ditadura da beleza, da magreza e da saúde como se fosse algo da ordem de uma escolha pessoal. Deixam-se de lado todos os mecanismos de regulação social presentes em nossa sociedade, que transformam o corpo, cada vez mais, em uma prisão ou em um inimigo a ser constantemente domado.

Malhado, como se malha o ferro, não é sem razão que tal expressão é utilizada nas academias de ginástica, na tentativa de adquirir a estética desejada. Tais técnicas, apreendidas, inicialmente, como uma disciplina, com o passar do tempo são incorporadas ao cotidiano do sujeito e sem que o mesmo perceba, acaba por reproduzi-las, sem que haja uma dimensão crítica ou reflexiva sobre essas atividades/comportamentos: a Pastoral do suor de que nos fala Jean-Jacques Courtine.

Se a contemporaneidade pode ser definida exatamente pela sua liquidez, como aponta ZygmuntBaumann em vários de seus escritos, ou pela sua evanescência – tudo que é sólido desmancha no ar, o culto ao corpo, demanda do sujeito exatamente o inverso – permanência e imutabilidade.

Como sabemos, a regulação social dos padrões estéticos sofreu variações históricas em torno dos ideais de beleza de algumas décadas atrás, até à atualidade, no qual seu imperativo exige a perfeição das formas conseguida por meio de inúmeras intervenções corporais e cujo exemplo mais representativo são as modelos e atrizes.

Todo esse percurso histórico deixa bastante clara a ênfase que vem sendo dada, cada vez mais, às práticas de culto ao corpo, bem como às técnicas de aperfeiçoamento da imagem corporal. As interferências, transformações e todos os métodos de disciplinização do corpo, acompanhados da moralização da beleza, buscam esse caráter de permanência do belo corporal.

Trata-se dessa forma, de comer com a disciplina imposta pela nutricionista e, num segundo momento, anular os efeitos da ingestão, através de rigorosos exercícios físicos. Carregado de um sentimento de culpa infalível, fruto das advertências de ambos profissionais, nas quais comer não deve ser, senão, o ato de alimentar-se, destitui-se, dessa forma, a alimentação de toda a sua dimensão de prazer, fazendo com que o sujeito acredite que deva alimentar-se do olhar que equivale à aprovação social e que, por conseqüência, legitima e estimula tais práticas na obtenção desse corpo.

O que é ser bela? Acho que a sociedade nos cobra e nos sufoca demais com isso. Gostaria de dar menos valor à aparência, mas não consigo, pois vivo num mundo onde os valores estão em segundo plano e o físico em primeiro. Se eu quiser conquistar algo aqui neste mundo, sem dúvida nenhuma, a minha aparência influenciará 90%. É triste, mas é a mais pura verdade, pois comprovei isso na pele – precisei me livrar de todo o meu recheio.

As técnicas de reversão do processo de envelhecimento nos remetem ao tão sonhado projeto evolucionista do corpo. Atingida a sua maturidade, o corpo estaria livre de todas as enfermidades e intempéries – , o corpo anseia por não mais fenecer. A tentativa pós-moderna parece ser a subversão da condição humana de mortal.

Não se trata, certamente, de negar os avanços da ciência e, sim, de estar atento à dimensão de controle e regulação de nossos corpos. Como jocosamente aponta Ximenes Braga no jornal O Globo: Mundo afora, o estado quer controlar cada vez mais o que as pessoas fazem consigo mesmas, e impedir crianças de engordar é mais um degrau de ridículo nesse Zeitgeist. Qual o próximo passo? A criminalização da aspirina, do sushi e do steak tartar?

Mas retornemos à nossa afirmação acerca do preconceito contra a gordura – estando aí incluído até a gravidez.

Historicamente, à mulher é associado o binômio beleza e fertilidade, estando o último aspecto referido a tudo que difere a sua anatomia da masculina, ou seja, aquilo que em suas entranhas é produzido. Entretanto, a cultura atual parece demonstrar que nem mesmo a gravidez justifica as marcas de envelhecimento deixadas pela natureza, logo, os traços remanescentes do processo da maternidade devem ser extirpados do corpo feminino.

Ressignificados e afastados do ideal de juventude, esses traços são interpretados pela cultura como feios e, portanto, devem ser eliminados, reiterando mais uma vez a máxima de que só é feio quem quer. Nesse sentido, vale lembrar a propaganda da linha de cosméticos Helena Rubinstein: Nos tempos atuais, é imperdoável que a gravidez faça com que a mulher perca a sua silhueta… A mulher deve ter um belo corpo para mostrar após os filhos estarem criados.

O fenômeno observado, tal qual descrito, parece indicar um corpo análogo ao corpo andrógino referido por Baudrillard, no qual houve o apagamento dos signos de diferença. Não é à toa, que a maioria de nossas entrevistadas associa a necessidade da cirurgia à gravidez e aos processos ulteriores de maternagem, como a amamentação, e justificam seu desejo de anulação dessas marcas dizendo tratar-se de um excesso desnecessário. Ironicamente, a amamentação é o exemplo prototípico de um excesso interno do corpo feminino que produz a satisfação do bebê.

Depois da gravidez mudou tudo… os peitos desabaram. Já ouviu falar nas termas de Caracalla?

Não adianta, porque quando você engravida as marcas estão lá mesmo – então por que não consertar?

De que corpo, então, estão falando essas mulheres? Será um corpo sem marcas ou inscrições: um corpo em branco? Quem ou o que contaria então a sua história? Será ousado pensar tratar-se da valorização de um corpo oco? Como um corpo virtual, que só possui duas dimensões, aquelas que os olhos alcançam. Ou ainda, como o corpo publicitário: para sempre diante do seu olhar!

Freqüentemente associado ao corpo que “atrai”, a cirurgia é buscada como uma forma de se manter atraente aos olhos do outro. Permanecer jovem, seduzir, manter o interesse do companheiro são justificativas muitas vezes empregadas. Não é de se espantar que muitas vezes ninguém possa tocar esse corpo. Ele está/existe apenas para a visão, ou seja, para ser admirado – os seios Pão de Açúcar nas palavras de uma entrevistada.

Frases que são proferidas com o intuito de estimular ou mesmo reforçar positivamente as pessoas gordas a persistirem com dietas e/ou rotina de exercícios, ilustram bem a idéia do corpo magro como um ideal a ser atingido, bem como a representação social do gordo como um imperfeito que deve ser reeducado, de forma eficiente à moralização do bom comportamento. Neste sentido, nada espelha melhor a moral do culto ao corpo do que a disciplina, a perseverança e a obstinação.

Vejamos alguns exemplos ouvidos em academias: vai gordinha que você chega lá ou, no caso de demonstração de cansaço, o seu corpo é um reflexo do seu comportamento – se for paradona, preguiçosa do tipo que só gosta de comer e dormir, fatalmente será gorda, caidaça e toda flácida. (fala de um personal trainer).

Finalmente, um dos relatos que melhor afirma a idéia da exclusão social infligida às mulheres gordas – a negação da sexualidade:

Um amigo meu uma vez me disse: se quiser ser desejada emagreça, pois é óbvio que ninguém vai olhar para gordinha “cocota” e sim para a saradona “cascuda”.

Parece que a fala do amigo diz à nossa entrevistada que ela é menos mulher por ser gorda, logo, feia. Ser gorda lança-a na condição de apenas amiga dos homens, ou seja, só as magras podem exercer sua feminilidade plenamente, pois conseguem despertar o desejo dos “carinhas”. Feiúra é índice de menos-ser.

Contudo, não se trata, como alguns colegas apontam, de reduzir a busca por um corpo ideal, a uma falha, uma falta, um defeito, uma patologia ou um processo de alienação. Trata-se, a nosso ver, de poder pensar por quais processos discursivos e de socialização estas e outras práticas fortemente instituídas e difundidas colaboraram para anular as resistências ao que nelas existe de opressão.

É preciso pensar na forma pela qual os agentes interiorizam/incorporam o discurso dominante e na sua conseqüente reprodução no seio da sociedade. É importante notar que os mecanismos que regem a dinâmica das relações, tais como sujeição e dominação, obediência e imposição, não devem ser encarados como algo que vem de cima para baixo, e sim como um processo dialético, horizontal, encenado por todos os membros de uma sociedade, assimilado como uma tática inerente ao jogo, e que permeia todos os âmbitos e espaços indo da família à escola, dos locais de trabalho às instituições públicas, retornando ao convívio social.

Por isso, torna-se fundamental refletir acerca da sociedade de imagens na qual vivemos. O corpo, ao entrar em cena, e ocupar agora um espaço que dá ao indivíduo a visibilidade necessária aos poderes disciplinares, torna-se o principal alvo das estratégias de controle. Por essa mesma razão ele deve ser pensado e visto como uma possibilidade de resistência.

Este mundo é feito para os magros, jovens, brancos, caucasianos e sem nenhum tipo de deficiência física. Quem não pertencer a um desses grupos, com certeza ficará à margem sofrendo inúmeros preconceitos.

Por Joana V. Novaes e Junia de Vilhena

18.04.10

Desabafo …

Meu nome é Fernanda, tenho 24 anos sou Gordinha, bem Gordinha na verdade, visto numeração 54.

Adoro esse blog e precisava desabafar e resolvi escrever para vocês que são lindas e acho que podem me dar uma opinião.

Namorava há dois anos, até que meu namorado de uns meses para cá estava estranho e distante, o que acabou caminhando para que terminássemos.

Um mês depois do término ele se assumiu GAY, e eu sofri demais com o fato do homem que eu amei ter preferido ficar com outros homens, do que comigo.

Essa revelação já tem mais de 50 dias e eu to sofrendo demais, porque todos dizem que a culpa é minha (inclusive a mãe dele e a minha também) falam que se eu não fosse tão desleixada (gorda, porque sou bem vaidosa) ele não teria mudado a opção sexual dele.

Na minha cabeça tá um grande conflito porque sei que ele já era gay só não tinha descoberto, mais ser julgada como culpada tem me feito muito mal.

O motivo que me levou a escrever é porque preciso saber vocês Gordinhas acham que minha obesidade pode ter interferido no gosto sexual do meu ex namorado?

25.03.10

Preconceito escancarado em relação a obesos

Como uma mulher cuja altura e peso me colocam na categoria de obesa na tabela de índice de massa corporal, recentemente me encolhi quando Michelle Obama falou sobre colocar suas filhas de dieta.
Embora tenha certeza de que as intenções da primeira-dama são as melhores, também sei que seus comentários sobre obesidade infantil acrescentarão um fardo ainda maior estigma de ter sobrepeso nos Estados Unidos.
Em agosto do ano passado, Delos M. Cosgrove, cirurgião cardíaco e presidente da prestigiada Clínica Cleveland, disse a um colunista do New York Times que, se pudesse se escapar legalmente, nunca contrataria um obeso.
Ele provavelmente conseguiria se safar, na verdade, pois nenhuma legislação federal protege os direitos civis dos trabalhadores gordos, e apenas um estado, Michigan, proíbe a discriminação baseada no peso.
Cosgrove pode ser direto demais, mas está longe de estar sozinho. Posturas públicas sobre gordos nunca foram tão críticas; estigmatizar pessoas gordas se tornou não apenas aceitável mas, em alguns círculos, necessário.
Já me sentei em reuniões com colegas que nem sonhariam em depreciar cor, sexo, classe social ou atratividade geral de alguma pessoa, mas que parecem tranquilos ao comentar sobre seu peso.
Ao longo dos últimos anos, os gordos se tornaram bodes expiatórios para todos os tipos de desgraças culturais. “Hoje, existe uma atmosfera onde não há problema em colocar a culpa de tudo no peso”, disse Linda Bacon, pesquisadora nutricional e autora de “Health at Every Size: The Surprising Truth About Your Weight” (Saúde de Todos os Tamanhos: a Surpreendente Verdade Sobre sua Saúde, sem versão em português).
“Se estamos preocupados com a mudança climática, alguém aparece com um artigo sobre como as pessoas gordas pesam mais, portanto precisam de mais combustível, e culpam aqueles acima do peso pela mudança do clima. Temos essa forte crença de que é culpa deles, que tudo se explica pela gula ou falta de exercícios”.
Não é segredo que ser gordo raramente é bom para sua carreira. Heather Brown experimentou isso em primeira mão. Alguns anos atrás, ela se candidatou a um emprego de redatora numa pequena organização sem fins lucrativos na região de Boston.
Depois de uma bem-sucedida entrevista por telefone, ela foi convidada a comparecer no escritório. “Assim que cumprimentei a entrevistadora, já sabia que ela não me contrataria”, disse Brown. “Ela lançou um olhar de absoluto desdém. Durante a entrevista, ela nem mesmo olhava para mim, ficava olhando para o lado”, diz. Brown, de 36 anos, trabalha hoje como reitora-assistente numa faculdade próxima a Chicago.
Essa história é familiar para pessoas como Bill Fabrey, advogado que fundou, em 1969, a Associação Nacional para Acelerar a Aceitação dos Gordos nos Estados Unidos.
Os arquivos da organização, segundo ele, são repletos de histórias de pessoas que perderam empregos ou promoções por conta do peso, ou que nem chegaram a ser contratas.
Algumas das mais deliberadas discriminações a gordos vêm de profissionais da medicina. Rebecca Puhl, psicóloga clínica e diretora de pesquisa do Centro Rudd de Diretrizes Alimentares e Obesidade, em Yale, estudou o estigma da obesidade por mais de uma década.
Mais da metade dos 620 médicos entrevistados para um estudo descreviam pacientes obesos como “estranhos, sem atrativos, feios e improváveis de obedecer a um tratamento” (essa última é significativa, pois médicos que acham que os pacientes não seguirão suas instruções acabam tratando e prescrevendo de maneira diferente).
Puhl disse estar especialmente incomodada com o quão abertamente os médicos expressavam seus preconceitos. “Se estivesse estudando preconceitos de gênero ou raça, eu não poderia usar as ferramentas de avaliação que uso, pois as pessoas não seriam tão verdadeiras”, afirmou. “Elas tentariam ser mais politicamente corretas”.
Apesar da abundância de pesquisas mostrando que a maioria das pessoas é incapaz de realizar mudanças significativas e de longo prazo em seu peso, fica claro que os médicos tendem a enxergar a obesidade como uma questão de responsabilidade pessoal.
Talvez eles vejam a vergonha como uma estratégia de tratamento de saúde. Caso seja verdade, isso está funcionando? Não muito.
Pessoas acima do peso fogem de tais julgamentos simplesmente evitando visitas ao médico, seja para exames de rotina, preventivos ou problemas de saúde urgentes.
De fato, Peter A. Muennig, professor-assistente de política de saúde em Columbia, diz que o estigma pode fazer mais que manter as pessoas acima do peso longe dos médicos: ele pode até mesmo deixá-los doentes.
“O preconceito é intensamente estressante”, diz. “O estresse coloca o corpo em alerta total, o que eleva a pressão, o nível de açúcar, tudo que você precisa para combater ou fugir do predador”.
Com o tempo, esses estresses crônicos levam a um quadro de pressão alta, diabetes e outras doenças, muitas delas (surpresa!) associadas à obesidade.
Em estudos, Muennig descobriu que as mulheres que dizem se sentir pesadas demais sofrem de mais doenças mentais e físicas do que aquelas que se dizem confortáveis com seu tamanho – não importando seu peso.
Um recente estudo mostra que, quando mais alta a massa corporal de um paciente, menos respeito o médico expressa por ele. E quanto menos respeito um médico tem por seu paciente, segundo Mary Huizinga, principal autora do estudo e professora-assistente da Escola de Medicina Johns Hopkins, menos tempo o médico passa com o paciente – e menos informação ele oferece.
No último outono nos Estados Unidos, a Universidade Lincoln, no sul da Pensilvânia, anunciou que iria pesar e medir todos seus calouros, e exigiriam que aqueles com um IMC acima de 30 se inscrevessem numa aula especial de fitness.
Defensores dos direitos dos gordos chamaram isso de discriminação: se a aula de fitness era tão importante para a saúde do aluno, não deveria ser obrigatória para todos? Os administradores da universidade voltaram atrás após um furacão de repercussões negativas.
Mas a controvérsia destaca o fato de que esse estigma não diz respeito a aprimorar a saúde dos indivíduos, como sustentam médicos como Delos Cosgrove. Se assim fosse, as conversas seriam sobre saúde, em vez de números na escala e tabela de IMC.
Linda Bacon conta a história de uma adolescente acima do peso, cuja escola passava por uma “campanha de bem-estar”. Os corredores foram cobertos com pôsteres dizendo: “Evite a obesidade adolescente”. Depois que os cartazes foram afixados, segundo a menina, seus colegas de escola começaram a ridicularizá-la em público, apontando para a menina obesa dos cartazes e dizendo: “Olhem a menina gorda”.
Ela conta que os alunos mais pesados foram induzidos a sentir culpa por suas escolhas de almoço, enquanto os magros podiam comer qualquer coisa sem ouvir comentários – mesmo que fosse exatamente o que as crianças gordas estavam comendo.
“O estigma dá às crianças magras permissão para achar que há algo de errado com as crianças mais pesadas”, disse Bacon, a pesquisadora nutricional. “E isso não ajuda com que olhem para seus próprios hábitos de saúde. Tem de haver uma maneira de fazer isso de forma mais respeitosa e eficiente”, diz.

Eu li isso aqui.

24.03.10

POSTAGEM #200 : MULHER GORDA SÓ PODE USAR ROUPA PRETA?

Eu estava esperando a dona do blog, mas “num guento” hahaha…
Recebi esse texto e só o título já é fantástico…
Espero que vocês gostem!


Por Tate em Cotidiana

Gordofobia é um tema prometido faz tempo nessa coluna aqui. o que é? aversão, ódio, fobia e/ou tratamentos depreciativos às pessoas gordas e/ou gordura. almoço muitas vezes no restaurante da unb, no refeitório vegetariano. algumas pessoas que comem lá não são vegetarianas, escolhem o refeitório porque acham que a comida é “mais saudável” ou porque tem menos fila. no ano passado eu tava lá almoçando e, perto de mim, tinha uma mesa com umas 4 pessoas, 1 mulher e uns 3 homens, todxs brancxs. a mulher namora um dos homens. e ele faz um comentário assim: “ia ser bom se comida não fosse gostosa, porque aí não existiriam pessoas gordas no mundo. elas não iam ter mais motivo pra comer tanto e engordar. pensa só, galera, que lindo um mundo sem gente gorda”. as outras pessoas riem. gargalham.
Eu estava bem sentadinha lá, comendo a comida gostosa e barata que acho pouco saudável (por ter agrotóxicos), com meus muitos quilos “a mais”, almoçando no vegetariano porque sou vegetariana, há 10 anos agora, por motivações que começaram com respeito à vida das pessoas não-humanas. só bem recentemente é que comecei a ter mais cuidado com a saúde no plano da alimentação. já fui a rainha da fritura, e ainda gosto muito de açúcar. aliás, só parei de comer fritura quando cansei de lavar as panelas das coxinhas (de lentilha!), das mandiocas fritas, dos quibes de ervilha… muitas pessoas, até hoje, se espantam quando sabem que sou vegetariana. não conseguem entender como uma mulher gorda pode ser vegetariana. associam, ainda, uma dieta vegetariana a uma que chamam de natureba, e os estereótipos atacam novamente!
A magreza tem sido incentivada em nossa sociedade, esse pedaço de mundo pós-colonial, tecnocrata, de capitalismo patriarcal e racista, a partir de motivações que criam e consolidam o mito de que magreza é saúde, e conectam “saúde” a “funcionalidade” dos corpos. recentemente vi num jornal de tv a notícia de que uma mulher que concorria a uma vaga de emprego foi dispensada por ser obesa. é importante lembrarmos que também é um traço construído, nessa sociedade (e constitutivo da mesma), colar “saúde” com “funcionalidade”; e ambas serem a medida de quem vai servir pra ocupar postos no mercado de trabalho, por exemplo. os exames de saúde admissionais ilustram isso, podendo advertir ao patrão sobre a capacidade de eficiência da pessoa a ser contratada a partir da possibilidade de exploração de sua mão-de-obra, pra que ele não só deixe de arcar com custos de lesões e traumas causados pelo esforço, mas que possa eliminar pessoas mais propensas a “menos eficiência e funcionalidade”.
Mesmo corpos gordos sendo “funcionais” pra esse uso exploratório e pra outros usos (próprios), ainda assim há todo um aparato midiático, a serviço de outras indústrias, que vai criar uma expectativa de magreza social. que indústrias outras? especialmente a farmacêutica e a de cosméticos. porque outra associação feita à magreza tem sido a da beleza; beleza sendo equiparada a magreza e vice-versa, justificando o afã das dietas mágicas de “perca 4 quilos em 7 dias”, o alto faturamento das indústrias da cirurgia plástica e das academias, a adoração dos corpos anorexos das passarelas, o boom das cirurgias de redução de estômago… um conjunto de processos de intervenção que tratam gordura como doença, padronizam o modelo estético pros corpos, e criam uma fobia à obesidade.
Obesidade é grave sim, eu também sei. Pode ter implicações no funcionamento interno dos órgãos, além de graves conseqüências psicológicas pras pessoas obesas. mas acho leviano que o que é um sintoma de outros distúrbios (de ordem psíquica, hormonal, afetiva ou mesmo social – “cultura do fast food” nos diz algo sobre isso) seja tratado como a doença em si. Há vários casos de que pessoas que fazem redução de estômago engordam de novo. Ou seja, onde tá o problema? Ou será que vivermos numa sociedade extremamente consumista, de acúmulo, não tem nenhuma relação com a forma como lidamos com a comida? Com as compulsões e distúrbios alimentares?
Anorexia e bulimia são, infelizmente, rotineiras nas vidas de muitas mulheres. uma filósofa feminista, alice gabriel, escreveu uma vez, lá no começo dos anos 2000, um artigo muito interessante sobre a relação entre o imperativo da magreza anoréxica e uma forma de “masculinizar” o corpo. masculinizar no sentido de afastar dele as características atribuídas à feminilidade: curvas, peitos, gordura acumulada nos quadris e nádegas… Anos mais tarde, lendo germaine greer, outra feminista, tive contato de novo com essa assunção, de que o padrão de beleza vigente nesse nosso pedaço de mundo tem tudo a ver com uma ótica de masculinização do mundo. Não significa que elas acham que todas as mulheres tenham que ser gordas pra serem mesmo mulheres, até porque o feminismo já ensinou pra gente que não existe um “ser mulher” único, mas sim várias formas de construção de femininos e masculinos que dependem muito dos interesses envolvidos, dos contextos, dos modos de produção, das economias (como sistemas de relação)…
Mas elas, e outras feministas, estão alertando pras conexões entre expectativas sociais quanto aos corpos e os sistemas políticos a que elas servem, ideologicamente. o impacto disso é sentido na vida de cada uma, tanto naquela que enche o prato de folha pra poder comer uma sobremesa, quanto aquela que vomita o que comeu, e aquela que se olha no espelho se achando sempre gorda ou magra demais, e também daquelas que fiscalizam o peso da outra. Tem também a ver com aqueles que contam “piadas de gordinho”, que ofendem, humilham, xingam, ignoram, destratam e oprimem pessoas que têm corpos considerados fora da norma, com as milhares de revistas de dietas nas bancas (ao lado das milhares de revistas de receitas)…
a gordura e a obesidade são problemas sociais na medida em que impedem ou constrangem a existência de um enorme grupo de pessoas, quando tornam um pesadelo sair de casa quando não se tem uma roupa preta que “te deixa parecer mais magra”, ou no inferno particular que é comprar uma roupa numa loja de departamentos. são problemas sociais quando a sociedade não dá conta de lidar com uma diversidade que é real, em contraste à virtualidade das mulheres e homens de papel, nas capas das revistas, novelas, filmes… os corpos que existem são os corpos que estão aí, nossos corpos e os que circulam perto da gente, ou longe e escondidos porque nosso olhar é julgador, preconceituoso, nossas palavras são afiadas como navalha: “ah, ela tem o rosto tão bonito… podia emagrecer né?”; “nossa, que vara-pau”.
Tem gente que não consegue querer levantar da cama porque é gorda, e acorda desejando estar saindo de um pesadelo, o pesadelo que seu corpo virou: uma prisão ditada pelos costumes cruéis, hegemônicos e normalizadores de uma sociedade bem doentia e gordofóbica. eu sei que tem porque passei muitos anos acordando assim. E agora, quando acordo e me olho no espelho me sabendo e sentindo linda, maravilhosa e gostosa, com todas as dobras e gorduras e marcas, escrevo essas palavras esperando que elas possam, de alguma forma, deixar as manhãs de outras mulheres gordas mais felizes. Agora me visto muito mais de vermelho, e branco, muito branco. Pra todo mundo me ver chegando, em todo meu tamanho.
Pra todas as minhas amigas que engordaram mais que gostavam, e isso começa a incomodar (hipertensão e pré-diabetes; ou às vezes atrapalhando na performance sexual). Pras que tão fazendo dieta não porque querem ser capa da vogue, mas pra voltar a caber nas roupas favoritas, parar de sentir dor no joelho, subir escada sem ficar tão cansada, ter muito gás pra dançar… e que começaram a comer de outra forma, com mais tranqüilidade e entendendo os alimentos como pontes pra saúde integral.
Eu li isso aqui.