Categoria: Comportamento

12.06.10

Prioridades.






Oi gurias…
Priorizar o que realmente importa faz a diferença.
Nesse ultimo mês tinha me programado para alguns trabalhos, mas que seriam confirmados mais próximos dos eventos.
Fiquei muito estressada, ou melhor, alimentei um estresse sem necessidade.
Silêncio total…
Nenhuma mensagem! Nenhum celular toca! Nenhuma confirmação! Bah!
As datas dos eventos se aproximando e eu estava ficando aborrecida… estava ligada na tomada.
Fazia tudo correndo para poder estar livre para o que “eu” achava importante…
Estava comendo um boi pela pata. (Afinal qual é o vício de uma gordinha? Comida!)
Bobeira total.
Pára tudo!
Meu marido e meus filhos, com uma paciência invejável, me alertaram que eu tinha passado a última semana mau-humorada…
Claro!! A TPM pegou, mas o maior motivo foram as expectativas “a mais” que eu alimentei em relação a estes eventos .
Então resolvi organizar a bagunça.
Crise de mau humor controlada?…OK!
Deliguei da tomada?…OK!
Alimentação normal?…OK!
Dia-dia normal?…OK!
Ai… após uns dias…”Gisele Total Relax”…abro meu MSN e a seguinte mensagem “ligar para agência fulano de tal urgente”…
Pronto!
Respirei fundo…
E pensei: – Não alimenta a ansiedade. É você que controla ela.
É assim meninas.
Quando você coloca limites, a ansiedade é controlada e as coisas funcionam.
Tudo deu certo, e até acima das expectativas!
Como uma típica mulher que chegou aos 32 anos, eu tenho responsabilidades.
Filhos, Marido, Família, Gato, Profissão e ainda por cima eu resolvi ser Modelo Plus Size.
Maluca né?!

Para não deixar nada de lado eu fiz uma lista de prioridades:
1º. Filhos amados e assistidos, adultos felizes.
2º. Maridão. Além de um super parceiro, ele me protege e me embala quando preciso.
3º. Família. Porque ela é a minha raiz. Foi através dela que aprendi meus valores.
4º. Profissão. Que eu adoro e à duras penas eu estou me aperfeiçoando mais.
5º. Modelo Plus Size. Porque se o resto não funciona, o meu rosto transparece, a minha voz não é a mesma eu fico sem cor, sem graça e assim não existe a verdadeira beleza.

Bom agora chega de trabalho vou namorar… 
Até a próxima gurias…
Um conjuntinho de beijinho e Abraço!
E não esqueçam a palavra de hoje é PRIORIDADE.




Gisele Veleda
Modelo Plus Size

03.06.10

A SAGA DA CALÇA JEANS

Planejamento:
Porque não é assim , você levanta de manhã e vai , nãããão.
Primeiro , gordinha só compra jeans quando PRECISA. Porque dá tanto trabalho, que a gente fica adiando e choramingando muito , antes de se decidir.
1º passo , precisa estar com a auto-estima em dia , precisa ser um daqueles dias que você assume seus quilos a mais e diz pro mundo , o peso é meu , o dinheiro é meu , eu faço o que quero!
2º passo , TEM que estar tempo frio , mais pra frente vocês vão entender porque.
3º passo , tem que separar uma boa grana , porque você não tem idéia de quanto vai custar AQUELA que vai te servir.
4º passo , precisa estar com espírito de aventura , porque vai ser uma longa jornada. NUNCA , a primeira calça que você experimenta fica boa. E nem na primeira loja.
5º passo , é uma tarefa de uma mulher só. Se você chama uma amiga , lá pela 15ª calça que você provar , ela não é mais sua amiga. Ou já te abandonou , ou está com uma cara tão azeda , que você se pergunta se a loja está dando limões de brinde.
6º e último passo , tem que esquecer a vaidade na hora de sair de casa. Roupas e sapatos fáceis de tirar , cabelo com rabo-de-cavalo , pouca maquiagem , lenços de papel e brincos pequenos.
Tudo isso , tem um porquê , e logo vocês vão saber…

Tudo preparado , você estufa o peito e vai…
Olha , 8.934 vitrines , tentando achar uma que tenha modelos de cintura mais alta. Porque , cintura baixa já não te pertence mais , faz teeeempo.
Achou , entra e pede pra moça da loja. É claro que , o modelo que você pediu não tem no seu número , ela então , abre 421 calças em cima do balcão , inclusive as de cintura baixa e aquelas clarinhas , que você disse logo que entrou que não gostava.
Você separa umas três de modelos diferentes e se joga no provador.
O provador é aquela coisa enorme e deliciosa , onde você tem que escolher entre , pôr a bolsa no chancho e não ter onde colocar as calças , ou colocar as calças e ficar chutando a bolsa durante a troca de roupas.
Você vira de frente para a porta , pois morre de medo de “dar uma bundada” e ela abrir. Tira suas roupas devagar pra não acabar batendo a cabeça nas laterais e pega uma das calças novas…

Veste com cuidado a primeira calça, para não pisar na barra e cair e acabar entalada naquele cubículo abafado , e vai subindo a calça , até ela ENTALAR no meio das suas coxas. Tudo bem , tira a calça , pede um número maior , enquanto prova as outras.

Segunda calça , você segura na frente do corpo e nota que ela é quase da largura do provador , desanimada , você começa a vestir , ela sobe facilmente pelas suas pernas e … fica enorme nos quadris , dá pra fazer uma feira sem precisar levar sacola , cabe um melão em cada bolso. Você tira e pede um número menor.

Terceira calça , sobe com esforço , mas não fecha. É nessa hora que você agradece o cabelo preso , você abaixa a cabeça , encara o zíper com olhos de pistoleiro de bangue-bangue e TENTA mostrar quem manda.
É claro que ele não se entrega fácil. Parece aquele programa de pescaria no domingo de manhã (êêêê bichão , ó como briga bem) , você joga o corpo para um lado , troca de perna de apoio , desiste , bufa , empina o peito , abaixa a cabeça e tenta lembrar se tem algum creme , manteiga ou lubrificante na bolsa , os dedos doem de puxar , você está suando , mas no SEU dicionário não consta a palavra desistir , torce mais um pouco , rebola , encolhe a barriga , estira os músculos do pescoço , tudo isso sem emitir nenhum som , porque o mico é maior se alguém ouvir , e , fecha o zíper.
Roxa , sem respirar , com os braços exaustos , dedos doendo , com um fio de suor escorrendo no meio das costas , você torce o corpo pra olhar a calça atrás e descobre que não foi sua barriga que encolheu , foi sua bunda. Tamanho maior , please!

Abre o zíper e na pressa de tirar , bate o cotovelo na parede , a única que não é de madeira, tira a calça e volta pra número Um tamanho maior , veste puxando bem pra passar pelas coxas , que estão justíssimas , e fica folgada na cintura , você fica pensando em levar na costureira e fazer umas pences , só pra levar aquela mesmo , aí lembra que não levou a que você comprou há um ano atrás pra fazer barra e até hoje usa só dobrada , com um alfinetinho pra não desdobrar enquanto anda. Tamanho do meio , tem?

Simbora pra , calça número Dois tamanho menor , veste , passa fácil pelas coxas , já dá até um ânimo , o zíper fecha fácil , você começa a ouvir um coro de anjos cantando “Achei a Escolhida”, levanta a cabeça , olha no espelho e nota que é cintura média , não é baixa , maaasss , você fica parecendo um panetone , com as banhas formando uma “sobra de massa” em volta do cós.
Com vontade de chorar , de dó de si mesma , e com raiva mortal da pizza que você comeu no fim de semana, você se despede da esperança número 5.

Chega a vez da , terceira calça tamanho maior , sobe fácil , está confortável na cintura e o zíper…
Peraí , tem certeza que este modelo é feminino? Porque , parece estar faltando um acessório pra encher essa calça na virilha , o que é este papo? Esta sobra de tecido , bem aí? Quando eu virar travesti , eu volto.


Você veste sua roupa , com dificuldade , porque agora está toda suada e colando , arruma os cabelos que estão escapando do rabo , limpa o lápis dos olhos que deram uma borrada , usa os lenços de papel pra enxugar o suor da testa e das costas , repara que , de alguma forma , seu batom borrou o ombro da sua blusa (como?) , procura o brinco que caiu durante a “pescaria” , pega a bolsa do chão , espana as marcas de pisadas e sai pra encontrar uma vendedora com cara de compaixão e desapontamento:
-Não ficaram boas , não gostou de nenhuma? (cadê minha comissão?)
-Não , obrigada.(beesha , se VOCÊ está desapontada , imagina eu)
Você sai da loja , com vontade de virar hippie e só usar vestidões daí pra frente , mas desiste de tentar escapar e assume: você é uma mulher com uma missão.
Estufa o peito , vai na próxima loja , e começa tudo de novo.


Esse texto é da Ro do Blog Gato Mia , achei muito REALISTA e tive que trazer para vocês lerem também, espero que curtam tanto como eu eu curti.

Aproveitando o tema Jeans, qual a marca preferida de vocês?
28.05.10

Preconceito – Digital

Um amigo muito querido me enviou essa imagem já faz um tempinho.

Ele sendo fã de nossas formas não achou graça e muito menos eu.
Outro dia em um destes blogs de bobeira me deparei com a mesma imagem, porém ela tinha uma legenda que dizia: Álcool o melhor amigo das gordinhas .

Hoje já é sexta deixo a imagem para vocês minhas leitoras baladeiras lembrarem-se disso antes de beijar um bêbado porque não compensa de forma alguma ficar com alguém que precisa beber para te aceitar, acho que todas já conheceram ou ouviram falar de casos assim.
E aproveitando da mesma imagem, alguém sabe me explicar como uma pessoa perde horas no Photoshop engordando e emagrecendo imagens para debochar de GORDOS?
Que coisa mais sem propósito, não consigo entender.
22.04.10

Fatorexia

A inglesa Sara Bird, de 44 anos, acredita sofrer de uma condição que a levou a acreditar estar magra e com um peso bem abaixo do que seu verdadeiro, um distúrbio que ela compara a uma “anorexia invertida” que batizou de “fatorexia”.


Tudo começou cinco anos atrás, quando foi diagnosticada como obesa num consultório médico, depois de anos sem subir numa balança.
Na consulta de rotina, ela descobriu que pesava quase 30 quilos a mais do que imaginava. Imagine que decepção! Agora, veja só o que ela disse que sentia quando se olhava no espelho, de preferência pequeno onde só via seu rosto:
“Eu me enxergava uma pessoa confiante, magra, quando na verdade eu estava obesa.

Tinha me convencido de que tinha o controle sobre o meu peso, quando, na verdade, era exatamente o oposto.”
Tudo conspirava para que Sara não se sentisse gorda. Como tinha variado de peso em vários momentos de sua vida, a inglesa tinha roupas de todos os tamanhos e não percebeu que estava engordando.

Agora depois de identificar seu engano e fazar um tratamento psicológico, Sara quer contar com o apoio dos médicos especializados para identificar oficialmente a síndrome que faz com que os portadores tenham uma imagem falsa ou distorcida de sua real forma física .

No seu site, Sara Bird explica que busca maior compreensão dos médicos ao lidar com pacientes obesos.

“Eu acredito que se as dietas não funcionam, então a pessoa tem que resolver a situação de um modo que a faça feliz. Para mim, essa resolução veio com a aceitação de quem e o que eu sou ao mesmo tempo em que, ao conquistar a fatorexia, não me torno ainda mais gorda”, diz ela.

“Se dar conta da fatorexia tem a ver com controle, moderação e escolha. Não quero passar horas sem fim na ginástica. Só quero ser o mais saudável possível e aproveitar minha vida ao máximo”, diz ela.

A pesquisa resultou no livro Fatorexia: What Do You See When You Look In The Mirror? (“Fatorexia: o que você vê quando olha no espelho?”), lançado em março passado, no qual a autora descreve sua experiência.


A organização
Beat, uma instituição que há 21 anos dá apoio a pacientes de distúrbios alimentares na Grã-Bretanha, afirmou que o único caso conhecido do transtorno no país é o de Sara Bird.

A entidade não acredita que a “fatorexia” venha a ser reconhecida como distúrbio alimentar pela medicina.

Eu não me vejo MAGRA quando olho no espelho, mais também não vejo uma mulher com OBESIDADE MÓRBIDA. Não sei se chega a ser algum distúrbio mais sempre digo que se eu fosse FEIA seria mais fácil seguir uma dieta, tenho extrema dificuldade em passar fome se quando me vejo no espelho adoro o que ele reflete.

E vocês como lidam com essa questão?

22.04.10

Dormindo com o inimigo. Mulher, feiúra e a busca do corpo perfeito

O primeiro dia de um obeso numa academia de ginástica é sempre um evento. O meu, por exemplo, foi assim: meu marido precisou ficar meia hora dentro do carro, em frente à academia, me convencendo a entrar. Eu pensei, só tem gostosona lá dentro, o que é que eu vou fazer nesse lugar?

No filme Tudo Sobre Minha Mãe, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, ilustra bem a idéia do sujeito que deseja mudar sua aparência para ficar cada vez mais único, de acordo com o que queria parecer. Assim, o personagem do filme, um transexual chamado Agrado, que já havia realizado inúmeras intervenções plásticas, dizia: Uma pessoa pode se dizer mais autêntica quanto mais se aproxima de como sonhou ser.

Mas com o que sonha grande parte das mulheres em nossos tempos? A gordura acabou com minha vida, dizia uma entrevistada, em uma matéria da Folha de S. Paulo. Cadernos de saúde, academias de ginástica, lojinhas de produtos naturais e cirurgias plásticas cada vez mais numerosas, parecem nos dizer que a moda do corpo magro, esbelto, sarado e cuidado chegou para ficar.

Mais ainda –, ai de quem desses parâmetros se afastar!!! Em recentes pesquisas que vimos realizando e cujas falas reproduziremos ao longo deste trabalho, pudemos observar, não apenas o caráter impositivo de uma estética que nada tem a ver com o biotipo brasileiro, como o profundo preconceito que as mulheres feias (leia-se gordas) sofrem.

Sem caráter, sem força de vontade e vistas como desleixadas, a anatomia feminina deixou de ser um destino para ser uma questão de disciplina: se não conseguimos agenciar nossos corpos, como seremos capazes de agenciar nossas vidas ou nossos empregos? Recente pesquisa feita pelo New York Times aponta para uma enorme diferença salarial (quando são contratadas!) entre mulheres bonitas e feias.

A moralização do corpo feminino, como aponta Baudrillard em seu livro A sociedade de consumo, nos leva a encarar a ditadura da beleza, da magreza e da saúde como se fosse algo da ordem de uma escolha pessoal. Deixam-se de lado todos os mecanismos de regulação social presentes em nossa sociedade, que transformam o corpo, cada vez mais, em uma prisão ou em um inimigo a ser constantemente domado.

Malhado, como se malha o ferro, não é sem razão que tal expressão é utilizada nas academias de ginástica, na tentativa de adquirir a estética desejada. Tais técnicas, apreendidas, inicialmente, como uma disciplina, com o passar do tempo são incorporadas ao cotidiano do sujeito e sem que o mesmo perceba, acaba por reproduzi-las, sem que haja uma dimensão crítica ou reflexiva sobre essas atividades/comportamentos: a Pastoral do suor de que nos fala Jean-Jacques Courtine.

Se a contemporaneidade pode ser definida exatamente pela sua liquidez, como aponta ZygmuntBaumann em vários de seus escritos, ou pela sua evanescência – tudo que é sólido desmancha no ar, o culto ao corpo, demanda do sujeito exatamente o inverso – permanência e imutabilidade.

Como sabemos, a regulação social dos padrões estéticos sofreu variações históricas em torno dos ideais de beleza de algumas décadas atrás, até à atualidade, no qual seu imperativo exige a perfeição das formas conseguida por meio de inúmeras intervenções corporais e cujo exemplo mais representativo são as modelos e atrizes.

Todo esse percurso histórico deixa bastante clara a ênfase que vem sendo dada, cada vez mais, às práticas de culto ao corpo, bem como às técnicas de aperfeiçoamento da imagem corporal. As interferências, transformações e todos os métodos de disciplinização do corpo, acompanhados da moralização da beleza, buscam esse caráter de permanência do belo corporal.

Trata-se dessa forma, de comer com a disciplina imposta pela nutricionista e, num segundo momento, anular os efeitos da ingestão, através de rigorosos exercícios físicos. Carregado de um sentimento de culpa infalível, fruto das advertências de ambos profissionais, nas quais comer não deve ser, senão, o ato de alimentar-se, destitui-se, dessa forma, a alimentação de toda a sua dimensão de prazer, fazendo com que o sujeito acredite que deva alimentar-se do olhar que equivale à aprovação social e que, por conseqüência, legitima e estimula tais práticas na obtenção desse corpo.

O que é ser bela? Acho que a sociedade nos cobra e nos sufoca demais com isso. Gostaria de dar menos valor à aparência, mas não consigo, pois vivo num mundo onde os valores estão em segundo plano e o físico em primeiro. Se eu quiser conquistar algo aqui neste mundo, sem dúvida nenhuma, a minha aparência influenciará 90%. É triste, mas é a mais pura verdade, pois comprovei isso na pele – precisei me livrar de todo o meu recheio.

As técnicas de reversão do processo de envelhecimento nos remetem ao tão sonhado projeto evolucionista do corpo. Atingida a sua maturidade, o corpo estaria livre de todas as enfermidades e intempéries – , o corpo anseia por não mais fenecer. A tentativa pós-moderna parece ser a subversão da condição humana de mortal.

Não se trata, certamente, de negar os avanços da ciência e, sim, de estar atento à dimensão de controle e regulação de nossos corpos. Como jocosamente aponta Ximenes Braga no jornal O Globo: Mundo afora, o estado quer controlar cada vez mais o que as pessoas fazem consigo mesmas, e impedir crianças de engordar é mais um degrau de ridículo nesse Zeitgeist. Qual o próximo passo? A criminalização da aspirina, do sushi e do steak tartar?

Mas retornemos à nossa afirmação acerca do preconceito contra a gordura – estando aí incluído até a gravidez.

Historicamente, à mulher é associado o binômio beleza e fertilidade, estando o último aspecto referido a tudo que difere a sua anatomia da masculina, ou seja, aquilo que em suas entranhas é produzido. Entretanto, a cultura atual parece demonstrar que nem mesmo a gravidez justifica as marcas de envelhecimento deixadas pela natureza, logo, os traços remanescentes do processo da maternidade devem ser extirpados do corpo feminino.

Ressignificados e afastados do ideal de juventude, esses traços são interpretados pela cultura como feios e, portanto, devem ser eliminados, reiterando mais uma vez a máxima de que só é feio quem quer. Nesse sentido, vale lembrar a propaganda da linha de cosméticos Helena Rubinstein: Nos tempos atuais, é imperdoável que a gravidez faça com que a mulher perca a sua silhueta… A mulher deve ter um belo corpo para mostrar após os filhos estarem criados.

O fenômeno observado, tal qual descrito, parece indicar um corpo análogo ao corpo andrógino referido por Baudrillard, no qual houve o apagamento dos signos de diferença. Não é à toa, que a maioria de nossas entrevistadas associa a necessidade da cirurgia à gravidez e aos processos ulteriores de maternagem, como a amamentação, e justificam seu desejo de anulação dessas marcas dizendo tratar-se de um excesso desnecessário. Ironicamente, a amamentação é o exemplo prototípico de um excesso interno do corpo feminino que produz a satisfação do bebê.

Depois da gravidez mudou tudo… os peitos desabaram. Já ouviu falar nas termas de Caracalla?

Não adianta, porque quando você engravida as marcas estão lá mesmo – então por que não consertar?

De que corpo, então, estão falando essas mulheres? Será um corpo sem marcas ou inscrições: um corpo em branco? Quem ou o que contaria então a sua história? Será ousado pensar tratar-se da valorização de um corpo oco? Como um corpo virtual, que só possui duas dimensões, aquelas que os olhos alcançam. Ou ainda, como o corpo publicitário: para sempre diante do seu olhar!

Freqüentemente associado ao corpo que “atrai”, a cirurgia é buscada como uma forma de se manter atraente aos olhos do outro. Permanecer jovem, seduzir, manter o interesse do companheiro são justificativas muitas vezes empregadas. Não é de se espantar que muitas vezes ninguém possa tocar esse corpo. Ele está/existe apenas para a visão, ou seja, para ser admirado – os seios Pão de Açúcar nas palavras de uma entrevistada.

Frases que são proferidas com o intuito de estimular ou mesmo reforçar positivamente as pessoas gordas a persistirem com dietas e/ou rotina de exercícios, ilustram bem a idéia do corpo magro como um ideal a ser atingido, bem como a representação social do gordo como um imperfeito que deve ser reeducado, de forma eficiente à moralização do bom comportamento. Neste sentido, nada espelha melhor a moral do culto ao corpo do que a disciplina, a perseverança e a obstinação.

Vejamos alguns exemplos ouvidos em academias: vai gordinha que você chega lá ou, no caso de demonstração de cansaço, o seu corpo é um reflexo do seu comportamento – se for paradona, preguiçosa do tipo que só gosta de comer e dormir, fatalmente será gorda, caidaça e toda flácida. (fala de um personal trainer).

Finalmente, um dos relatos que melhor afirma a idéia da exclusão social infligida às mulheres gordas – a negação da sexualidade:

Um amigo meu uma vez me disse: se quiser ser desejada emagreça, pois é óbvio que ninguém vai olhar para gordinha “cocota” e sim para a saradona “cascuda”.

Parece que a fala do amigo diz à nossa entrevistada que ela é menos mulher por ser gorda, logo, feia. Ser gorda lança-a na condição de apenas amiga dos homens, ou seja, só as magras podem exercer sua feminilidade plenamente, pois conseguem despertar o desejo dos “carinhas”. Feiúra é índice de menos-ser.

Contudo, não se trata, como alguns colegas apontam, de reduzir a busca por um corpo ideal, a uma falha, uma falta, um defeito, uma patologia ou um processo de alienação. Trata-se, a nosso ver, de poder pensar por quais processos discursivos e de socialização estas e outras práticas fortemente instituídas e difundidas colaboraram para anular as resistências ao que nelas existe de opressão.

É preciso pensar na forma pela qual os agentes interiorizam/incorporam o discurso dominante e na sua conseqüente reprodução no seio da sociedade. É importante notar que os mecanismos que regem a dinâmica das relações, tais como sujeição e dominação, obediência e imposição, não devem ser encarados como algo que vem de cima para baixo, e sim como um processo dialético, horizontal, encenado por todos os membros de uma sociedade, assimilado como uma tática inerente ao jogo, e que permeia todos os âmbitos e espaços indo da família à escola, dos locais de trabalho às instituições públicas, retornando ao convívio social.

Por isso, torna-se fundamental refletir acerca da sociedade de imagens na qual vivemos. O corpo, ao entrar em cena, e ocupar agora um espaço que dá ao indivíduo a visibilidade necessária aos poderes disciplinares, torna-se o principal alvo das estratégias de controle. Por essa mesma razão ele deve ser pensado e visto como uma possibilidade de resistência.

Este mundo é feito para os magros, jovens, brancos, caucasianos e sem nenhum tipo de deficiência física. Quem não pertencer a um desses grupos, com certeza ficará à margem sofrendo inúmeros preconceitos.

Por Joana V. Novaes e Junia de Vilhena