Tag: comportamento alimentar

14.12.17

Precisamos falar de transtornos alimentares

 

transtornos alimentares

Anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno da compulsão alimentar, síndrome do comer noturno, transtorno alimentar restritivo/evitativo, entre outras, são as doenças conhecidas como transtornos alimentares, algumas vezes chamados de distúrbios alimentares.

Os transtornos alimentares não têm cara. Muitas pessoas fazem associações como “anorexia = mulher magra demais”, “bulimia = vomitar” ou “compulsão = pessoa gorda e que come muito”. Isso é completamente prejudicial, porque homens podem ter anorexia nervosa, pessoas não-magras também podem ter anorexia nervosa, existem muitas pessoas com bulimia que não vomitam, ter compulsão não é apenas comer muito, existem muitas pessoas que tem compulsão e que não são gordas, e a maioria das pessoas gordas não tem compulsão. Assim, todas as pessoas que não “preenchem os critérios” não percebem que tem algum transtorno alimentar e não vão buscar ajuda para isso.

Traduzindo: uma pessoa gorda pode ter qualquer um deles! Isso não tem relação com o peso ou forma do corpo da pessoa, mas sim com comportamentos, pensamentos e sentimentos em relação ao corpo e à comida.

 

Algumas características que talvez sirvam como ponto de atenção:

• Medo grande de comer alguns alimentos OU
• Achar que é dependente (viciado) em comida OU
• Alternar entre períodos de dieta e de “comer muito” OU
• Fazer misturas alimentares estranhas OU
• Comer coisas que não são comidas (papel, sabão, etc) OU
• Pensar constantemente em emagrecer e em controlar a alimentação OU
• Evitar situações sociais (festas, happy hour) por medo de comer OU
• Sensação de perder o controle enquanto come OU
• Medo grande de engordar OU
• Comer escondido OU
• Ficar pensando sistematicamente em quantas calorias/ingredientes/carboidratos tem aquela comida OU
• Não conseguir decidir o que comer porque acha que tudo faz mal OU
• Muita culpa após comer os alimentos.

Fazer dieta é o principal estimulante para um transtorno alimentar. Às vezes ela vem mascarada como “comer certinho”, “só comida de verdade”, “só alimentos limpos”, mas ainda assim o mecanismo que ela funciona é mesmo. Então fuja das dietas!

transtornos alimentares

 

“Mas se eu ficar sem fazer dieta aí que vou aumentar o meu peso sem parar”: esse é um pensamento comum, por achar que a única forma de comer bem é fazer uma dieta, mas não é, existem outras maneiras, e são essas maneiras que ajudamos pessoas com transtornos alimentares.

A maioria das pessoas tem horror ao nutricionista, mas esse é único profissional que pode ajudar a melhorar sua relação com a comida para comer melhor e sem “neuras”. Mas não é qualquer nutricionista que pode ajudar nesses casos. É preciso que seja um nutricionista especializado / aprimorado em transtornos alimentares (o tratamento é muito diferente do que se faz em outras situações clínicas). Nutricionista comportamental não é nutricionista especializado / aprimorado, nutricionista que teve ou tem transtorno alimentar não é nutricionista especializado / aprimorado, coach de emagrecimento não é nutricionista especializado / aprimorado.

O psicólogo é muito importante no tratamento, trabalhando “as reais causas” do problema. O psiquiatra muitas vezes é necessário para entrar com alguma medicação que ajude.

Todos os dias eu ouço das pessoas sobre a vergonha que sentem por ter essa doença e o tanto de culpa, por achar que elas não têm força de vontade, determinação ou foco. Muitas vezes também se sentem “sujas” e se comparam com animais comendo, frequentemente o porco. Se sentem sozinhas, julgadas, as piores pessoas do mundo.

 

A boa notícia é que tem solução, basta procurar a ajuda certa para a situação!

 

29.06.17

Remédios para emagrecer

remedios para emagrecer

 

Esse é um assunto polêmico, portanto acho melhor deixar claro alguns pontos antes de começar o texto.

  1. Eu não sou médico, sou nutricionista.
  2. Minha intenção não é indicar ou contra-indicar qualquer tipo de medicamento nesse texto, mas sim trazer algumas reflexões que acho interessante para as pessoas não-médicas fazerem.
  3. Nutricionista nenhum pode prescrever medicamentos, isso é proibido.
  4. Os profissionais da alimentação devem saber como eles funcionam e qual o impacto que isso tem na alimentação, corpo e saúde geral da pessoa.
  5. Embora só os médicos possam prescrever medicamentos, esse é um assunto que diz respeito a todas as pessoas da sociedade.
  6. O foco do texto é o uso desses medicamentos para emagrecer.

Por que estamos falando disso?

Em outubro de 2011 alguns medicamentos para “controle de peso” e “inibir o apetite” foram impedidos de serem comercializados no Brasil e outros sofreram um ajuste de prescrição mais rigoso: anfetamínicos (anfepramona, femproporex e manzidol) e sibutramina, respectivamente.

O motivo de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) “com base em estudos internacionais que constataram a baixa eficácia desses medicamentos na perda de peso e riscos à segurança do paciente”, especificamente “os riscos à saúde oferecidos por esses remédios, como problemas cardíacos e alterações no sistema nervoso central, superam o benefício da perda de peso” ¹. Percebam que as pessoas que participaram desse veto não eram size friendly, mas mesmo assim reconheciam riscos importantes.

Nesse meio tempo esses medicamentos continuavam sendo usados ilicitamente, algumas vezes por pessoas que decidiam tomar elas por conta própria e compravam no “mercado negro”. Outras vezes prescrito por médicos, infelizmente. Eu já era nutricionista nessa época e atendi inúmeras pessoas que fizeram uso desses medicamentos nesse período.

Nesse mês (Junho/2017) esse medicamentos voltaram a ser permitidos no Brasil e isso gerou uma série de debates² . Muitas associações médicas se mostram contra a proibição dessas medicações desde o início.¹

É importante salientar que quem proibiu em 2011 foi a ANVISA e quem liberou em 2017 foi um projeto lei sancionado pelo presidente em exercício. A ANVISA ainda permanece contra e afirma que esse projeto é inconstitucional³.

A primeira questão aqui é: o quanto o Congresso tem de capacidade técnica para decidir se uma substância é mais ou menos danosa à saúde?

Segunda questão é: será que não pode ter rolado uma pressão de algumas indústrias farmacêuticas (que possivelmente financiam campanhas ou fazer acordos políticos com atuais representantes do congresso) para que esses medicamentos fossem novamente liberados, logo para serem prescritos, para a galera ganhar mais dinheiro com consultas e prescrição de remédios?

Terceira questão: as substâncias são as mesmas e o nosso corpo é o mesmo, o que fez essas substâncias serem consideradas perigosas em 2011 aqui no Brasil e 2017 não mais? (PS: Algumas dessas medicações são proibidas há quase 20 anos na Europa e nos Estados Unidos²)

remedios para emagrecer

Você pode e deve questionar sobre alguma medicação que está sendo prescrita

Muitos profissionais não gostam de serem questionados, mas o próprio Conselho Federal de Medicina diz que essa lei “respeita a automia dos médicos e dos pacientes na escolha de procedimentos terapêuticos ‘reconhecidos e válidos’”.³

Vamos fazer valer esse direito? Converse com o médico: eu quero saber mais sobre esse medicamento; eu não quero tomar isso; eu prefiro não usar essa medicação; etc.

E se você não se sentir confiante, procure uma segunda opinião. Ou terceira, ou quarta… Até que você fique satisfeitx com o que foi acordado com você.

Cuidado com as “fórmulas”

Fique atentx principalmente quando o assunto for fórmula manipulada. Não é comum ler ou perguntar o que tem nas fórmulas, mas é preciso.

Mesmo se você não for ao médico para emagrecer, às vezes fica “implícito” pelo fato de ser gordx, que aquilo é necessário ou que você deseja.

Procure saber os efeitos colaterais

Leia a bula. Fomente discussões em fóruns. Converse com pessoas que já usaram pra decidir se você topa ou não o que vem junto do uso desses medicamentos. Alguns efeitos colaterais comuns das anfetaminas são taquicardia (sensação do coração batendo rápido, sentir que ele vai sair pela boca), agitação, insônia, transtornos psiquiátricos, elevação da pressão arterial, etc.

Minha experiência, enquanto nutricionista

O que eu posso falar do que acompanhei dos meus pacientes ao longo desses quase 10 anos, durante o uso de algumas dessas medicações e muitos após anos de parar de usar com o intuito de emagrecer.

Sim, eles emagrecem e muito rápido. Porém a pessoa reganha esse peso na mesma velocidade quando interrompe o tratamento. E o uso da segunda vez nunca produz o mesmo efeito (em termos de emagrecimento), assim como o terceiro e assim por diante.

Algumas pessoas desenvoveram ou potencializaram quadros psiquiátricos (depressão, síndrome do pânico, etc) após alguns meses ou anos da interrupção do uso desses medicamentos.

Muitos amigos médicos me disseram que esses casos são de pessoas que fizeram um uso incorreto da medicação. Isso eu não posso afirmar sobre quem eu acompanhei. Mas eu nunca atendi uma única pessoa que tenha emagrecido e mantido o peso com essas medicações que foram aprovadas. Não significa que elas não existam, mas a maioria foi como eu descrevi acima (fiz um cálculo mental rápido e só nos ultimos 6 anos eu atendi um total de aproximadamente 5 mil pessoas – apenas algumas usavam ou tinham usado essas medicações).

O desejo de emagrecer pode ser sedutor, mas fiquem atentxs para o que esse pacote trará para sua vida, não apenas hoje, mas amanhã, o mês que vem e o ano que vem. O corpo é seu, a saúde também.

 

¹ http://www.brasil.gov.br/saude/2011/10/anvisa-decide-banir-emagrecedores-a-base-de-anfetaminas-mas-libera-sibutramina

² http://portal.anvisa.gov.br/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/sibutramina-e-remedios-para-emagrecer-entenda/219201/pop_up?_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_viewMode=print&_101_INSTANCE_FXrpx9qY7FbU_languageId=pt_BR

³ http://www.farmaceuticas.com.br/presidente-em-exercicio-sanciona-lei-para-liberacao-de-anorexigenos-mas-anvisa-afirma-que-e-inconstitucional

 

https://www.facebook.com/nutricionista.cezar/