26.07.17

Guest Post: O Miss Bariátrica e a minha vivência

Essa semana rolou na mídia televisiva uma matéria sobre um suposto concurso de miss bariátrica, a matéria foi ao ar num programa de grande audiência do maior canal de TV aberta do país e me fez questionar muitas coisas.
Eu como mulher gorda e gastroplastizada me senti no direito de me manifestar a respeito desse concurso e contar um pouco sobre a minha vivência e também sobre o que os médicos não falam por aí.

Muito me preocupa o fato de se vender essa cirurgia por aí sem critério algum, uma cirurgia que está na escala das 5 cirurgias mais perigosas está sendo feita de forma banal como solução para emagrecimento definitivo, para encontro da felicidade perfeita e por fim da famigerada saúde, afinal ser gordo é ser doente!
Nunca se ressalta a quantidade de problemas que se adquire pós cirurgia, a quantidade de pessoas que eram saudáveis e ficaram doentes pós cirurgia, a quantidade de pessoas com sequelas severas e irreversíveis e por fim a quantidade de óbitos, que quando eu operei era de 1 pra cada 10 pessoas e sim essa é uma porcentagem absurdamente alta quando você considera que quase todas as pessoas que operam são mulheres jovens e saudáveis, como foi meu caso, e que estão optando pela bariátrica por pressão estética da família e da sociedade.

Não, de forma alguma sou contra o procedimento em si, acredito de verdade que ele salva muitas vidas, mas sei também que ele acaba com tantas outras, como foi o caso da minha mãe, ela como quase todo mundo, passou pelo processo todo de avaliação psicológica e afins, (essa baboseira toda que a equipe médica diz que avalia a fundo se o paciente está de fato apto a ser submetido ao procedimento cirúrgico, mas que no fundo não existe de fato um estudo real do paciente e isso tudo é só pra constar ou pra dizer que houve sim uma boa avaliação prévia) ela tinha depressão, teve várias complicações pós cirurgia, deprimiu mais ainda e sim isso agravou o quadro dela e a levou ao óbito.

Posso dizer que vi dois ou três casos que foram vetados pelos psicólogos e equipe médica dentre as dezenas de casos de operados que conheço. Em compensação a quantidade de pessoas que vejo com depressão pós cirurgia, com vícios em drogas, álcool, cigarro, compulsão por compras, anorexia, bulimia, etc. é enorme. Isso sem contar os problemas metabólicos, vitamínicos, reganho de peso, a tal síndrome de dumping e outras síndromes que são adquiridas pós cirurgia e que sequer os médicos se interessam em resolver. O discurso é sempre o mesmo de que o paciente não se alimenta bem, não se cuida, não tem vergonha na cara, não se esforça, toda reprodução gordofóbica de sempre. Obviamente é muito mais fácil tratar o paciente como culpado do que tentar investigar de fato o que ocorre com aquele indivíduo e o porquê dele estar passando por tais problemas.

O Miss Bariátrica e a minha vivência

Será que eu poderia participar do Miss Bariátrica? É só uma curiosidade…

Voltemos agora a questão do Concurso Miss Bariátrica – Parem e analisem a gravidade disso!
Um médico (que diga se de passagem, nem de longe tem um físico atlético) promovendo um concurso de beleza baseado em uma cirurgia altamente grave. Um procedimento arriscado, caro, com muitas consequências, está sendo vendido como beleza, como felicidade, como bem-estar. Falta critério na indicação de quem deve ou não fazer essa cirurgia, falta respeito pela escolha de querer ser gordo e feliz e saudável sim. Incentivar e submeter pessoas jovens e saudáveis a esse tipo de coisa deveria ser crime!

Ouvi pessoas exaltarem o concurso dizendo que era em respeito à diversidade, não existe diversidade alguma em promover algo que coloca em risco a vida de pessoas saudáveis em detrimento de uma aparência que entre nos moldes midiáticos e sociais. Não se trata de diversidade, se trata de vender produtos, tratamentos, se trata de dinheiro, se trata de fazer de novo e mais uma vez nós mulheres acreditarmos que só teremos valor se formos obedientes, se fizermos exatamente o que a mídia, a medicina e toda a indústria, interessada só em encher os bolsos de dinheiro, nos manda fazer.

Vamos questionar as coisas, se você quer emagrecer, você tem todo direito a isso, existem muitos recursos para isso, mas pense se vale a pena você que é saudável se submeter a uma bariátrica para passar o resto da vida com carência e absorção de vitaminas, síndromes de dumping e afins, queda de cabelo brusca, unhas quebradiças, entalando com muitos alimentos sempre. Que preço você está disposto a pagar em nome na satisfação alheia?

 

Gabriela Tayah

 

 

8 Comentários // Deixe o seu!

  • Sociedade sem noção esta em que vivemos. Em qualquer enfermidade cirurgia são consideradas apenas em último caso. Mas para padronizar pessoas a bariátrica é feita até se o indivíduo é saudável.

  • Beatriz says:

    Sou bariatricada desde 2008. Concordo com muita coisa que vc falou. Principalmente com a banalização da cirurgia. Tive rebanho de peso. Dos 53 que perdi recuperei 18 e percebi o olhar crítico sobre mim. Até colegas de trabalho que fizeram a cirurgia muito depois de mim. Mas o tempo mostrará pra eles, como mostrou pra mim, que a obesidade nem sempre é nosso maior “problema “.
    Bjss

  • Me senti totalmente contemplada.

    Fiz a cirurgia há oito anos, quando estava doente, depressiva e totalmente vulnerável. Emagrecer foi o combo oferecido para mim que teria que tirar a vesícula.

    Então, eu emagreci, me vi livre de um relacionamento doentio e finalmente tive o amadurecimento da ideia de que não sou o que peso.

    Voltei ao meu peso anterior a cirurgia, mas dessa vez, mesmo com todas marcas e sintomas que seguem como souvenirs desse momento turbulento da minha vida, sigo fortalecida, gorda e principalmente algo que peso nenhum no mundo tem o poder de dar ou tirar: feliz!

  • Adorei a matéria!! Fiz a cirurgia bariátrica em 2006 emagreci 58 quilos. Cair cabelos, tive algumas das síndromes conhecidas, fiquei com o corpo todo flacido… E fora tudo isso, hoje estou com mesmo peso de antes da cirurgia. Não faz milagre, não resolve problemas. A cirurgia só me deixou a certeza que ser gorda não é um defeito. Sou feliz assim, e era antes tbm. Eu fiz pq os outros achavam que era bom pra mim… Muito nova fui pela cabeça da família. A mesma que me olha agora com pena… Pena pq “joguei fora” a oportunidade de ser magra. E hj é como se eu fosse doente aos olhos deles. Não dizem nada mas sei que é isso que pensam. Ainda hoje depois de tantos anos, sinto o entalamento as vezes… Que ainda me lembra de tudo que passei.

  • A cirurgia é muito delicada e perigosa, sim é verdade que é “vendida” como tábua de salvação. Eu não tenho mais síndrome de dumping, engordei 12 kgs do meu menor peso pq engravidei e já estou voltando ao peso normal, com reeducação alimentar, exercícios e meditação. A obesidade é sim uma doença que deve ser tratada com respeito e cuidado como qualquer outra. O equilíbrio é extremamente importante para a saúde, e como é óbvio uma pessoa obesa não pode estar equilibrada, com as exceções que tbm caracterizam desiquilibrios hormonais, metabólicos, etc. Esses dias vi uma menina que fez a bariatrica reclamando da agua de coco, do caldinho, do gatorade, qyeria uma outra solução… E eu dei!!! “Beba água!!!”
    Poxa, isso é realmente não estar nada preparada para uma cirurgia tão séria!!! Não é uma cirurgia estética, não é uma brincadeira!!! O pós operatório é super perigoso!!!
    E é verdade que aumenta muito o risco de depressão, ainda mais pq a compulsão alimentar que tínhamos e que já não é possível, leva a um estado de impotência e uma sensação de estarmos perdidos, por isso é necessário um acompanhamento psicologico intenso. Enfim, entendo sua revolta e sinto muito pela sua mãe. Mas, a verdade é que grande parte da recuperação e do bem estar físico e psicológico depende da nossa força e sim, da VERDADEIRA AVALIAÇÃO MÉDICA para dizer se estamos aptos ou não. Tenho 10 anos de operada, e tomo até hoje vit. B12 intramuscular, reposição de ferro, zinco, ácido folico, ômega 3, e vit. D. Sigo uma dieta natural e paleolítica, como muita proteína e nada de farinha e pão. Tem sido renovador!!! Espero q sejam tidos felizes e saudáveis!!!

  • Daniella Dias says:

    Só não dá certo pra quem não quer…

  • Viviane Faria says:

    Adorei essa matéria….muito bommmmm!

  • JOHANNE RICHTER says:

    Well..
    Falar sobre temas polêmicos nunca é fácil, não ando com uma plaquinha dizendo fiz bariátrica, podem me julgar pq não dói.
    Dói, dói muito! Tanto quanto doía quando eu era “excluída” por não ser uma gorda dentro do padrão aceito pela gordolandia.
    Penso que cada caso é um, é o meu foi por saúde e graves problemas eu tinha digasse de passagem,. Tomava 5-6 comprimidos de remédios por dia, hj tomo 1 de vitaminas.
    É estou sim muito feliz por não sofrer mais em lojas , com olhares maléficos.
    Minha pele caiu é óbvio emagreci 54kg, meu cabelo também( como em qualquer pessoa que passa por um processo cirúrgico).
    Mas tô muito mais feliz comigo mesma, tô respirando, não canso a cada 10 passos e acho que a vida de cada um é a vida de cada um. E só nos sabemos onde nossos sapatos apertam.
    Eu duvido que qualquer pessoa acima do 60 como eu era nunca tenha por um segundo sequer pensado em mudar de vida mesmo sendo “saudável”.
    Sobre o concurso, eu não participaria mas não vejo como errado ou digno de crucificação, deixa o povo se divertir.
    Não temos 489 concursos de miss passoquinha plus size ?!
    Errado é julgar, errado é criticar o que a gnt não entende pq não vive.
    Errado é banalizar um procedimento cirúrgico de grande risco e porte por mero capricho.

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