Categoria: plus Size

02.03.18

6º #BPSPOA – O melhor da Moda Plus Size em Porto Alegre

A moda para tamanhos grandes tem endereço certo nos dia 10 e 11 de Março na Capital Gaúcha, a BPSPOA – Feira de Moda Plus Size, é o evento pioneiro no seguimento  no  Rio Grande do Sul, tendo como missão promover a auto estima da pessoa gorda, proporcionando aos visitantes um ambiente acolhedor, viabilizando uma experiência muitas vezes nunca vivida pelo nosso público: a possibilidade de escolher uma roupa que lhe vista bem, que foi feita para o seu biotipo e acompanhando as tendências do mundo fashionista.
A Feira de Moda, ou Bazar, como muitos visitantes ainda chamam, chega a sua 6ª Edição com seus expositores costumeiros e também com novidades: marcas autorais, desfile, música, saúde, gastronomia, arte e muita, mas muita moda para quem veste acima do manequim 46.

A 6ª Edição será palco do lançamento da Agência Plus Models que realizará desfile de moda exibindo looks das marcas participantes da Feira.  Na programação vocês podem saber os horários de todas as atrações.
A Feira BPSPOA foi pensada para ser um agradável espaço para compras, mas foi além, virou referência e se consolidou como um dos maiores eventos plus size do país. Lá é um espaço para confraternização e troca de experiências, a BPSPOA é fortalecimento do amor, sobretudo o próprio.

 

Confiram abaixo as marcas presentes nesta edição:

Moda plus size: 

Bella Donna – Cantinho DA JU – Chica Bolacha– Cozzire Plus Size – Dubella Fashion Modas –Feminina Plus Size –  Garbosa Curve and Plus Size – Gudamagoo – Gorda Sim – La Curvy –  Loja Optchá – Open Plus Size – Plus Size, o seu tamanho – Rainha Nagô – Wonder Size

Mimos, presentes e cosméticos: 

Divina Acessórios Personalizados  – Soppro Joias Folheadas e Acessórios finos – Miniliê  

Alimentação: 

AB Doces Artesanais Chefitta – Dolci Iza – D&D Café – Sítio Do Ipê Amarelo

Apoio: Sizély Luxury Underware – Revista Hilda– Agência Plus Models

Moda Plus Size em Porto Alegre

Serviço:

#BPSPOA– 6ª Edição
https://www.facebook.com/events/580928188914412/
Data: 10 e 11 de Março (Sábado e Domingo)
Das 11 até às 18 horas
Local: Associação Israelita Hebraica RS (Rua João Teles n. 508 – Bom Fim – Porto Alegre)
#EntradaSolidária: Material Escolar

Informações: WhatsApp – (51) 98433-3753

 

Quem é de POA e região não pode perder esse evento, avisem as amigas. *_*

Tudo é feito com muito carinho para todas vocês, prestigiem e aproveitem para se presentear com peças das melhores marcas plus size do país.

 

 

01.03.18

Será que o plus size serve pra gorda?

O gordoativismo é um movimento social que cresce e se consolida diariamente. Uma das reivindicações mais urgentes que fazemos é a da acessibilidade, o direito a tudo que é necessário para nosso acesso e permanência em sociedade. O que muitos esquecem é que existe algo que vem antes das catracas e das cadeiras: A roupa. Não podemos ir a lugar algum se não estivermos vestidos, e quando se é uma pessoa gorda cujo manequim vai além do 54, essa dor de cabeça toma proporções que jamais seriam imaginadas por uma pessoa magra.

Mesmo que a indústria de moda plus size brasileira tenha crescido muito nos últimos 5 anos fazendo uso da bandeira de democratização da beleza, é um fato que a parcela de consumidoras que mais precisa se beneficiar desse nicho de mercado segue sendo ignorada. Aquelas pessoas que chamamos de gordos maiores, que sofrem muito mais o peso da gordofobia, também enfrentam a falta de peças de roupas fabricadas em seus tamanhos. E se analisarmos como vem se desenhando essa indústria, isso não é surpresa.

Existe hoje algo que eu chamo de padrão plus size, um ideal de “corpo gordo” higienizado e padronizado, que encontramos nas modelos utilizadas na maioria das lojas que dizem vender roupas para gordos. Esse corpo tem seios e quadris grandes, mas permanece com barriga, braços e rosto pequenos, além de uma surreal cinturinha. Ele existe para atender as regras de uma sociedade que, buscando vender um produto, precisa que ele não ameace as suas estruturas fundamentais – nesse caso, a gordofobia e o machismo. Assim, a moda plus size se tornou um meio de segregar as gordas bonitas e “aceitáveis” daquelas que ainda são consideradas excessivas demais para terem seus direitos atendidos.

Olha que legal! Um bando de modelo plus size sem barriga na campanha da marca Slink que diz para as mulheres amarem seus corpos como são.

 

As imagens das modelos na maioria das vezes ainda contam com um excesso desnecessário de edição. 

Como resultado desse problema, temos um mercado plus size que nos oferece peças com tamanhos limitados, preços altíssimos, modelos quase magras e difícil acesso, além de pouca visibilidade midiática para as marcas pequenas que querem fugir dessa regra. Mesmo que tenhamos várias marcas de roupas plus size, a maioria delas trabalha com tamanhos insuficientes. É comum vermos novas lojas abrindo com peças até o tamanho 54, enquanto
aqueles que vestem 58, 60, 62 ou mais permanecem precisando viver com apenas 2 ou 3 lojas disponíveis. Além disso, os preços vão muito além do necessário para custear a maior quantidade de tecido e linha, sendo normal encontramos liquidações plus size em que o produto mais barato custa 70 reais. Como se já não fosse dificuldade suficiente, descobrimos ainda que a maior parte do mercado plus size se encontra na internet, dificultando o acesso de quem não sabe ou não pode comprar online. E das modelos nem se fala: Sendo magras curvilíneas ou
gordas bem pequenas, fazem com que as consumidoras maiores tenham muita dificuldade na hora de imaginarem em seus corpos as roupas que vão comprar. Isso significa o que? Muito dinheiro gasto trocas de peças que não serviram.

Mesmo que sejam menos conhecidas e valorizadas pela mídia, podemos respirar mais aliviados com as poucas marcas que tentam fugir desse padrão e criar uma indústria plus size que realmente representa a atende os corpos gordos. Lojas como Lollaboo, Zuya, Rainha Nagô, FALA e F.A.T. produzem peças em tamanhos mais abrangentes e campanhas com modelos verdadeiramente gordas, como Bia Gremion. As peças permanecem mais caras que aquelas vistas em araras magras, mas são tranquilamente justificadas pelo alto custo da produção independente.

 

plus size serve pra gorda

A Rainha Nagô usa em suas campanhas modelos, clientes e até mesmo seus proprietários.

 

plus size serve pra gorda

Modelos em campanha da Lollaboo.

São os esforços dessas pequenas empreendedoras que dão a certeza de que não, não estamos exigindo demais. É possível existir um nicho de moda acessível, abrangente e honesto, mas para que isso tome forma é preciso que as marcas plus size que permanecem nesse padrão insuficiente saibam que os consumidores percebem e desaprovam. Precisamos exigir, reivindicar, fazer com que as grandes e médias marcas enxerguem e valorizem as consumidoras
gordas que exigem dignidade na hora de se vestir. E como fazemos isso? Dando prioridade aos pequenos produtores e demonstrando sempre que possível a nossa insatisfação. O exemplo da Ashua, linha plus size da Renner que aumentou sua grade de tamanhos após uma estreia que gerou centenas de reclamações, nos prova que para lucrar essas empresas precisam de nós e, por isso, vão ter que nos ouvir.

Escolhi falar justamente dos problemas da moda plus size na estreia do meu canal no youtube. Por sentir falta de conteúdo objetivo e útil ao gordoativismo em forma de vídeo, resolvi botar a mão na massa e fazer eu mesma um canal que fale sobre a política e a realidade do corpo gordo.

Caso queiram saber mais sobre esses e outros assuntos, assistam o vídeo e se inscrevam no canal pra não perder os próximos. 😊

 

23.02.18

Preto Gordo Style – Marcão Baixada

Conheci o Marcão Baixada já faz um tempinho, lembro de ter citado ele numa lista que fiz com vários homens gordos para seguir no Instagram (aqui), outro dia o vi  procurando gordos negros em seu Facebook e já fiquei ansiosa para saber o que estava por vir.
E o que veio foi mais legal do que eu imaginava, olhem essas fotos e essa galera MARAVILHOSA.

Com um elenco 100% negro e gordo o rapper gravou seu clipe da música Preto Gordo Style, apertem o play para conferir.

FICHA TÉCNICA
Música
Voz: Marcão Baixada
Programações, percussões e synths: Cleones
Gravado, mixado e masterizado por Marcão Baixada no Estúdio MTD
VÍDEO
Direção: Higor Cabral
Direção de Fotografia: Camila Guimarães
Cor: Camila Guimarães
Elenco: Marcão Baixada, Ewerton Nascimento, Raiane Silva, Jalmyr Vieira,
Anna Carolina Rocha, Felippe Silva, DJ LN e Paulo Barros.
Assistentes de Produção: Dani Seguer e Rodrigo Caê
Making of: Paulo Barros
Produção: roloB

 

Ficaram curiosos para saberem como surgiu a letra  e o clipe? Ele me contou tudinho e eu reproduzo para vocês abaixo.

“O bordão “Preto Gordo Style” em si, foi na verdade uma brincadeira que fiz com uma música de um rapper chamado Raffa Moreira, conheci ele há algum tempo e sempre trocamos ideia. Ele tem uma música que ele repete várias vezes a frase “Nêgo rockstar, yeah”, aí eu brinquei com essa coisa de cantar a frase do mesmo jeito que ele em cima da música, só que falando “Preto, gordo, style, yeah”. Aí pegou! Ficou chiclete e eu resolvi usar isso como refrão.”

“Há algum tempo venho debatendo com amigos sobre a inclusão plus size nas marcas de streetwear mais contemporâneas. Porque o streetwear sempre se comunicou com o skate e o Hip-Hop em uma época que as roupas largas sempre vestiram nós que somos mais gordinhos.
Sendo que atualmente, e isso parte de uma percepção pessoal minha, a forma de se vestir nesses segmentos mudou de uns 10 anos pra cá. Os cortes e costura das peças estão diferentes e boa parte das marcas não faz numerações dessas roupas mais “modernas” pro público plus-size. Então como já tinha a música, decidi reunir uma galera, pra que no vídeo pudéssemos expressar o amor pelo nosso corpo e pela forma que gostamos de nos vestir, que segue uma linha urbana.
Algumas pessoas do elenco já trabalham como modelos, fazendo figuração de vídeos, mas também tivemos não-atores no clipe. Então foi muito bacana, porque eu fiz um post no meu Facebook convidando as pessoas pra aparecer no vídeo e elas simplesmente se escalaram!”

Torço para que este clipe que está sendo lançado hoje seja sucesso, e que as marcas de moda streetwear percebam  que nós gordos existimos e também queremos consumir.  *_*

 

22.02.18

Encontrinho Plus Size Juiz de Fora

Já tive o privilégio de estar em eventos plus size das maiores cidades do país, mas mesmo que de forma bem tímida (quando comparamos com eventos de SP, RJ e BH) eu amoooo quando consigo juntar a mulherada (e os meninos também) de Juiz de Fora e região para desvirtualizarmos um pouquinho.

O primeiro encontrinho plus size Juiz de Fora deste ano aconteceu no Ibiza dia 26/01 e foi uma noite super agradável com bom papo e muitas risadas. A chuva que caiu um pouquinho antes acabou atrapalhando algumas pessoas de irem, mas quem foi curtiu muito. <3

Dá para ver que a gente curtiu bem, não é mesmo?

Mas além do bom papo e bons drinks (que na verdade era cerveja haha), rolou ainda sorteios babadeiros . Inclusive eu quero super agradecer a todas as empresas que trabalham diretamente com o plus size que participaram desse dia com a gente, ter o apoio de vocês é muito importante para construirmos um mercado plus size ainda melhor em nossa região. <3

Fernanda SouzaFacebookInstagram

Macadesh – FacebookInstagram

Mais Plus Size Store – FacebookInstagram

Marbella Moda Feminina – FacebookInstagram

 

E ainda contamos com duas  parcerias maravilhosas que não são marcas plus size, o  Matheus Castro foi nosso fotógrafo no dia e sorteou um ensaio com direito a maquiagem da Tainá Santos que em breve postarei por aqui, e a Priscila Pinheiro que desenvolve um trabalho super legal de consultoria focado em mulheres que também participou do nosso sorteio levando um mimo e uma inscrição gratuita para o evento que ela realiza mensalmente.

  Matheus Castro Fotografia – FacebookInstagram 

Consultoria para MulheresFacebookInstagram

Curtam, sigam e apoiem estas pessoas e empresas que acreditam e buscam melhorar o mercado plus size. *_*

Agradeço a todos que compareceram e espero que tenha sido para vocês tão legal quanto foi para mim. <3

Para quem for de JF e região, eu convido a participarem do no grupo no Facebook (aqui), para que fiquem por dentro dos próximos encontrinhos. Já estou pensando em marcar algo em breve e avisarei por lá.

 

E vocês curtem encontrinhos? Costumam ir quando rola perto de vocês? Eu super curto a internet em geral, mas amo ainda mais um bom papo presencial e por isso fico tão feliz em estar em eventos e encontrinhos.

30.01.18

Guest Post – Sou positiva. Sou soropositiva

Convidei a querida Letícia Assis, para um guest post contando sobre sua vivência como soropositiva, acredito que a experiência dela pode ser um alerta para muitas de nós. 


Há pouco mais de um ano minha vida mudou. Como jornalista, não gosto de enrolar e talvez por isso guardei comigo a forma de resumir assuntos nas primeiras linhas. Em novembro de 2016 descobri portar o vírus do HIV.

Agora, com calma, posso contar como foi e as razões pelas quais há alguns meses resolvi compartilhar essa história.

Tenho 40 anos, sou comunicadora, com formação e carreira em jornalismo. Também sou cozinheira profissional, mantenho uma empresa de eventos e sou cosmetóloga natural, entre outras aventuras.

soropositiva

Tenho uma filha, sou casada há quase uma década e, de alma cigana, já vivi em muitas partes desse Brasil. Dei aulas, aprendi, dei cabeçadas e me permiti. Isso inclui a parte sexual. Porém – ironicamente ou não – apesar de ter sido uma mulher de muita atividade, sempre gostei de ter alguém, de me apaixonar, das delícias e agruras de uma vida a dois. Fiz muito sexo sim, de muitos os tipos, sabores, tons, geralmente precavida de tudo até por ter a lua em virgem. Simm, havia esquecido de mencionar que minha maior amante nessa vida sempre foi a intuição. Graças a ela, conheci mil formas de espiritualidade, da astrologia à umbanda, meu pé no chão, creio, definitivo.

Pois essa canceriana, com ascendente em peixes, lua em virgem, vênus em touro; filha de Iemanjá com Xangô; portadora do Ohikari Messiânico e iniciada na Escola de Mistérios se viu sem chão no dia 28 de novembro de 2016, após 20 dias de coma induzido graças a um quadro de pneumonia severa. Sem chão eu estava mesmo porque ainda não andava e foi na UTI que aquele médico lindo e atencioso me deu a notícia. Ele já tinha contado ao meu marido e à minha mãe. Resolveu ele mesmo me falar, longe de todos, sobre os primeiros indícios do que havia acontecido comigo.

Para minha surpresa, eu estava com esse vírus tão assustador há muito tempo. Meu último teste de sorologia tinha sido feito na gestação da minha filha, hoje com 12 anos. Depois disso, até fiz um teste num posto e nunca fui buscar. Sabe-se lá o porquê… E as razões que me fizeram chegar ao limite do meu corpo. Logo eu, que sempre preferi saber das coisas de cara, por mais doído que fosse, achei que não era importante.

Uma sombra pairava sobre mim. Eu não sabia bem a razão. Só sentia. Mas como nenhum médico desconfiou, nem em pequenas cirurgias, nem olhando meus exames, seguia vivendo. Ao mesmo tempo, mantinha meu namoro e depois meu casamento com o Tiago sem uso de proteção. Secretamente, meu medo maior era que viesse dele algum problema pela visão que ele mesmo tinha do mundo. E não veio. Somos o que se chama de casal sorodiscordante.

Não veio dele e de nenhum dos parceiros de uma única noite que tive. Veio do namorado mais careta e mais retrógrado que tive. Um cara cheio de fantasias, sem coragem pra admitir seu verdadeiro eu, sociopata, agressivo, cheio de “poréns”, abusivo e que até minhas roupas queria controlar. Ou seja, alguém pelo qual até hoje não sei o porquê de ter me interessado. Talvez porque ele mentisse melhor do que eu. E, na época, eu era boa na arte de enganar as pessoas. Me senti desafiada a me relacionar com aquele mito da falsidade. Ou a sombra dele ofuscava a minha. Sei lá. Gostei muito dele. Só caí fora porque vi que estava indo pra um caminho que não me agradava. Mentira. Tenho certeza que caí fora graças aos meus guias e também ao Tiago – que de amigo passou a ser meu amante e depois namorado. Era um egum sem luz contra um exu tinhoso. O Exu sempre vence!

Ativismo e o Sim sou Diva

Há algum tempo, eu vinha participando de eventos e até promovendo alguns. Cheguei a criar um coletivo feminino, chamado Sim sou Diva. Estivemos em toda mídia possível local e nacional nos dois anos em que existimos. E num desses eventos (o Divas do Cinema Plus), eu organizei tudo e simplesmente não pude ir. Minha respiração era tão frágil, que eu mal cruzava uma rua sem chorar de dor no peito. O pulmão estava se entregando…

Foram nem dois dias para que eu fosse internada e logo estava entubada, inconsciente, na UTI. Mesmo assim, a descoberta do HIV só aconteceu por uma enfermeira que insistiu para que o médico examinasse minha boca, lotada de cândida, há meses. Eu nunca desconfiei que aquilo fosse indício de HIV. Pra mim era apenas baixa imunidade.

Teste certeiro e carga viral acima de 55 mil cópias. E daí o resto eu já falei.

Então, por muito tempo me escondi, com medo da rejeição. Contei para poucos amigos e alguns familiares. Aos poucos, fui tomando coragem, lendo depoimentos, voltando a trabalhar. Percebi que minha reclusão era a negação da minha luz e que eu precisava sim me expor. Eu lia pessoas falando de coisas acerca do vírus que eram risco iminente; aquilo me incomodava. Foi então que gravei o primeiro vídeo. Fiz umas 10 versões até que um ficou simples e natural:

Altos e baixos

Um dos tabus do HIV é pouco ou nada se falar a respeito do humor severamente afetado pelas medicações. Há quem consiga manter uma constância, mas no geral – e no privado – quase todo mundo relate instabilidade emocional. Num dia estamos bastante confiantes e no outro já planejamos testamento. Isso não tem tanto a ver com personalidade e sim com as reações químicas que o coquetel promove no cérebro.

Para quem não sabe, qualquer medicação antirretroviral penetra as barreiras neurocerebrais. Os efeitos variam muito: vão de alucinações à insônia leve, passando por euforia e tristeza, à praticamente nada. Cada organismo reage de uma forma e sabemos que pesquisas sobre atividade cerebral ainda são bastante inconclusivas seja qual for a razão.

Então, o portador de HIV está sujeito a variações de humor bem acima da média. Se tens algum amigo, parente, colega de trabalho ou companheiro em tratamento, um conselho: seja tolerante. Não, você não sabe o que é estar na pele dele, na nossa pele. E não é por piedade; não precisamos disso. É por exercício de humanidade, de compreensão.

Aliás, falando em piedade, é bem chato ouvir frases do tipo das pessoas. Até compreendo que pouco se fala sobre o assunto, pouco se conhece sobre tratamentos e reações e o estereótipo da morte rondando ainda é muito presente na sociedade. Mas ACREDITE: não precisa sentir pena. Ofereça seu apoio, seu abraço, seu ombro e principalmente o seu sorriso. A alegria cura, acredito muito nisso.

As dificuldades

Ouvi de várias pessoas quando contei que elas tinham um primo, um amigo go, blablabla, e que era só tomar o remédio e teria uma vida normal.

Não. NÃO! O coquetel é o primeiro passo, porém o caminho tem tanta pedra, gente, que não cabe em definições simplistas. Acredito que existam casos bem simples sim, mas não é o meu e não é o de muita gente.

Primeiro que há vírus mais resistentes (prazer!) do que outros. Segundo que as relações psicológicas, de trabalho, de firmeza da mente ou espiritualidade, de alimentação, DE OPORTUNIDADES DE TRATAMENTO PARALELO E DE APOIO são muito diferentes. Eu me trato pelo SUS. Não tenho queixas, exceto pela demora no resultado dos exames e das genotipias. Meu médico, Dr. Juliano, é excelente, atencioso e sempre busca informações adicionais quando precisa. A equipe DST do posto de São José e de Biguaçu sempre foi solícita dentro do que o serviço público e a situação em que o país se encontra permite.

Por um tempo, tive plano de saúde. Pude fazer check up cardiológico, endocrinológico, nutricional, ginecológico e pulmonar. Santa Catarina tem uma rede de medicamentos bem razoável e poucas vezes tive que peregrinar por medicação paralela. A do HIV nunca faltou.

Mas sei que há regiões do país onde falta até o coquetel. Pra marcar consulta é um inferno e por aí vai. Então, tenho consciência que sou privilegiada.

Outro privilégio é viver em um sítio, respirando ar puro, comendo coisas orgânicas. Isso faz muita diferença. Enfim, não dá pra simplificar e por todo mundo na mesma sacola.

Mesmo assim estou numa situação crítica: carga viral alta, CD4 baixíssimo, CD8 razoável e uma possível resistência medicamentosa.

Daí, pessoas, ouvir de quem você ama que te falta gratidão, que te falta perdão, que teu corpo está assim por intransigência, é bem desconfortável, pra não dizer cruel. Veja bem: pode até ser que seja verdade, mas nesse momento não quer ler nem ouvir isso. Se você não tem um abraço ou um sorriso pra me dar, nem diga nada. Não é momento de me julgar nem de apontar meus erros, até porque quem nunca errou? Só um parênteses.

Melhor então me deletar como muita gente fez ao ver o meu primeiro vídeo. É mais honesto e que cada um lide com sua forma de ver a vida.

Estereótipos

Por fim, para que esse texto não vire um tratado e agradecendo o precioso convite da Kalli, a quem admiro faz tempo, uma das razões pelas quais resolvi me expor é por ler comentários em grupos e posts, não necessariamente ligados aos HIV, porém bastante preocupantes.

Um deles diz respeito à orientação sexual. A AIDS se firmou como doença de gay, mas há bastante tempo se mostrou poderosa em qualquer âmbito socionormativo. O número de mulheres infectadas que são casadas, heterossexuais e com apenas um parceiro na vida é assustador.

Então, não confie. Ame sim, mas ame mais a você. Até porque milhares de pessoas sequer sabem que portam o vírus e as mulheres são mais vulneráveis por questões fisiológicas e pelo poder do sêmen; poder de contágio que os líquidos vaginais possuem em bem menor proporção.

soropositiva

O outro tem relação com biotipo. Sou uma mulher gorda. Apesar de ter emagrecido, continuo gorda e provavelmente morrerei gorda. Logo, ser gordo não te protege de nada nem denuncia perfil saudável pra DST. Gordos transam como outro tipo de pessoa qualquer. É incoerente, inocente e negligente que você não se proteja porque seu parceiro ou parceira é gordo, apenas pelo estereótipo de que aidético é magro. Estamos em 2018, gente! E o HIV evoluiu mais do que muita gente…

É isso. Teria mais a dizer, mas aos poucos vou compartilhando nos vídeos e, quiçá, na página do Sim sou Diva www.simsoudiva.com.br e www.facebook.com/soudivaplus, a qual pretendo alimentar melhor em breve.

Por enquanto, sigo com minhas incertezas, com muita fé e com meus sabonetes, cosméticos e quitutes, e às vezes palavras e conjecturas.